Inovação esbarra na falta de infraestrutura no Fundão

254/01/2014 - Parque Tecnológico da UFRJ sofre com problemas como telefonia ruim, queda de energia e insegurança RIO - Um oásis de inovação de 350 mil metros quadrados que alia startups, pequenas, médias e grandes empresas (algumas multinacionais) de setores como energia, petróleo e gás, meio ambiente e TI, na formação de um dos principais polos de pesquisa do Rio. Mas um oásis sujeito às intempéries da Cidade Universitária, na Ilha do Fundão. Assim é o Parque Tecnológico da UFRJ, que une estudantes, pesquisadores e profissionais em atividades de ponta, mas onde, por vezes, é difícil fazer uma simples ligação de celular. O problema faz parte de uma lista de queixas que inclui quedas frequentes de energia e, principalmente, o medo de assaltos. Com dez anos de existência completados em 2013 e mais de R$ 1 bilhão em investimentos recebidos na última década, o Parque Tecnológico da UFRJ é composto por mais de 30 empresas e tem uma população de cerca de 1.500 profissionais — quantidade que deve dobrar em 2014. Cada companhia instalada tem concessão de uso do espaço por 20 anos, renovável por igual período. Se os números impressionam, as fragilidades, também. “A telefonia é um inferno” Diretor de Tecnologia responsável pelo centro de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Inovax, João Carlos Ribeiro é um dos que lamentam. Para ele, muitos problemas ocorrem pelo fato de que, apesar de ser uma área ligada à pesquisa e à inovação, o espaço ainda está submetido ao contexto e à qualidade dos serviços prestados no Rio: — Passamos por alguns problemas que afetam a cidade. São questões como qualidade da internet e telefonia, queda de energia frequente, transporte deficiente e insegurança, e que não são ideais para o perfil tecnológico do parque. Engenheiro de sistemas habituado a atender grandes instituições e clientes no Fundão e no Parque Tecnológico desde 2008, José Luiz Simões conhece bem as limitações. Entre as mais comuns, afirma, está a dificuldade de se falar no celular: — A telefonia, na área do parque ou não, é um inferno. Como você vai trabalhar com tecnologia de ponta num ambiente em que não há telefonia funcionando? Contadora de uma grande multinacional instalada no Parque, Patrícia Gonzalez é outra que aumenta o coro sobre o sinal de telefonia ruim na região: — É difícil. Algumas operadoras até funcionam mais que outras, dependendo da região, mas é tudo muito inconstante. Tem dia em que é melhor, tem dia em que é pior. No geral, todas as operadoras sofrem de problemas. Acabo ficando dependente do telefone fixo da empresa para manter contato com o mundo. Quando saio, o celular começa a apitar com as notificações perdidas — conta ela. Sócio de uma empresa de médio porte instalada no Parque, V., que preferiu não ter seu nome divulgado, afirma que os problemas encontrados no local têm um peso maior para as companhias que não são grandes e, por isso, não têm condições de arcar com os custos para contornar algumas das limitações. Além dos problemas de telefonia, ele menciona quedas frequentes de energia e a preocupação com a insegurança do campus: — Quedas de energia, que costumam acontecer com alguma frequência, por exemplo, acabam tendo um peso grande para a minha empresa, pois nossos serviços precisam operar 24 horas por dia, e, infelizmente, não tenho como confiar numa estrutura dessas funcionando no local. Acabo tendo que lançar mão de servidores fora do Brasil, aumentando o meu custo. Ainda que aponte vantagens não financeiras para continuar no Parque, como a proximidade com a Coppe/UFRJ, o que favorece o foco de sua empresa em inovação, ele comenta que os problemas mencionados o fazem avaliar constantemente até quando a presença ali será algo benéfico. Funcionária do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), localizado no Fundão, mas fora da área do Parque Tecnológico, a engenheira P. (que também não quer ser identificada) por vezes precisa ir até o local para reuniões profissionais. Acostumada a circular dentro do campus, sua maior preocupação é a insegurança. Ainda que não tenha sido vítima de assalto, ela diz ter conhecidos, inclusive no Parque, que já enfrentaram esse problema. — Um dos casos aconteceu de manhã cedo, quando dois conhecidos foram rendidos por homens armados e assaltados. O outro caso foi há poucos meses, com pessoas que estavam no Parque, saindo um pouco mais tarde, e que sofreram uma tentativa de sequestro-relâmpago — conta ela, que diz achar o policiamento do campus insuficiente. Segundo a divisão de segurança da prefeitura universitária, até novembro de 2013 houve no Fundão 15 ocorrências de roubo a transeuntes ou alunos, 19 furtos contra terceiros, estudantes e funcionários, 40 furtos de automóveis, sete sequestros-relâmpagos, três roubos em ônibus e um encontro de cadáver. Os dados não fazem distinção entre o Parque Tecnológico e as demais áreas do campus. Mencionados por profissionais que atuam na Ilha do Fundão, os problemas já são velhos conhecidos dos estudantes do local. — Meu celular não funciona dentro da empresa em que trabalho, e apenas posso contar com a internet para me comunicar de lá. No prédio onde estudo, quedas de energia são frequentes. Um amigo já teve o carro furtado no Centro de Tecnologia neste semestre, e, há alguns anos, outro amigo sofreu um sequestro-relâmpago no campus — afirma T., que preferiu se manter anônimo por trabalhar em uma startup da incubadora de empresas da Coppe/UFRJ. Embora subordinado à prefeitura da Cidade Universitária, o parque tem administração própria. Gerente de Operações do local há três anos, Ismael Barberan reconhece algumas das queixas, mas diz que a maioria dos problemas vem sendo solucionada: — Em questões como telefonia e energia, somos atendidos pelas concessionárias e estamos sempre avaliando a qualidade dos serviços. Elas nem sempre nos atendem na velocidade com que gostaríamos, mas nos atendem — afirma. — Quanto ao sinal de celular, ainda que tenhamos deficiências com algumas operadoras, temos uma qualidade bem melhor que a do passado. Quanto à energia elétrica, sofríamos com quedas de fornecimento, mas a Light fez reparos recentes, e as coisas melhoraram. Ismael nega haver registros de furto, roubo ou agressão no parque e diz que a segurança na região é feita por uma empresa privada, com 19 agentes que fazem rondas e são auxiliados por câmeras. Prefeito da Cidade Universitária, Ivan Ferreira Carmo reconhece que a qualidade do sinal de algumas operadoras “não é satisfatória” em áreas específicas do campus, e que houve “uma repetição de falhas no fornecimento de energia” durante 2012, mas garante que muitas dessas questões vêm melhorando. Quanto à segurança, explica que ela é dividida em duas esferas: a do nível patrimonial e a do nível da segurança pública. Enquanto a primeira está a cargo da Divisão de Segurança da UFRJ (Diseg), a segunda fica sob responsabilidade da PM e da Polícia Civil. Entre as iniciativas recentes da prefeitura do campus para reduzir o número de assaltos e tentativas de sequestro, está a instalação de um novo sistema de monitoramento por imagens. — Já estão em operação 49 câmeras com alta resolução — diz Ivan, destacando ainda o “recente sistema de iluminação pública”. A PM informou que o policiamento na área foi reforçado. Alegando estratégia de segurança, a corporação não informou quantos policiais e carros atuam na região. As operadoras TIM, Claro, Vivo e Oi afirmam que vêm investindo na melhora do serviço no Fundão. A Vivo informa que pôs em funcionamento este ano duas novas antenas no parque e que, para os próximos meses, prevê mais três em toda a Cidade Universitária. Já a Claro alega ter colocado uma nova antena 3G especificamente para o Centro Tecnológico. A TIM e a Oi ressaltam ainda que a expansão de seus serviços está condicionada à concessão de licenças para a instalação de equipamentos. Sobre os problemas no fornecimento de energia, a Light diz que vem concentrando esforços na melhoria da rede elétrica que atende ao Parque Tecnológico e, nesse projeto, já substituiu 1,4 quilômetro de cabos na rede subterrânea. Para 2014, a companhia prevê a construção de um circuito subterrâneo de 4,5 quilômetros, num investimento de R$ 7 milhões. Thiago Jansen
Fonte: O GLOBO


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