O mergulho na realidade ou a queda do Olimpo

06/01/2014 - Em 2013, a União Europeia (UE) instituiu fundo que visa à formação de jovens para o mercado de trabalho. O objetivo é auxiliar países que apresentam situação mais crítica de desemprego. A aposta está concentrada nas profissões ligadas ao setor digital e gestão ambiental. No entanto, para alguns especialistas, a crise do desemprego entre os jovens europeus mal começou e demanda novo modelo nas relações de trabalho. A juventude enfrenta modelo de legislação trabalhista hábil em proteger quem está empregado, mas ainda frágil em buscar soluções para os desempregados. As mudanças que a Europa tem vivido merecem especial atenção. A situação da América Latina é distinta, em especial em países como Brasil e México, mas temos o que aprender da conexão global que nos cerca. Nenhum modelo pode sobreviver ao longo do tempo sem operar transformações em seu interior. É a capacidade de renovação e construção de modelos de atuação política, social e econômica, de forma ágil, que aponta para transições sem rupturas bruscas, extremistas e de caráter imprevisível. A atuação do Estado e a articulação dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário se mostra fundamental. É nítido um movimento europeu que visa a mais flexibilizações e menos rigidez nas leis trabalhistas ao olhar os milhões de jovens sem oportunidades. Trata-se de movimento que merece atenção na América Latina, que, a seu modo, vive a necessidade de modernização em várias frentes. Se mudanças são exigidas na legislação e na atuação dos Três Poderes, é preciso entender também o real papel das empresas nesse cenário. Os tempos atuais pedem esforços na ressignificação da razão social das empresas e do seu papel diante dos temas sociais. Ser empresa de mercado com espírito público pode ser a chave. Toda empresa tem sua função social ligada a três fatores bem demarcados: o significado do trabalho que realiza (valor social do trabalho), a organização de suas atividades na construção de resultados sustentáveis e as competências que é capaz de gerar na criação de valor pelos serviços que presta. Cabe às empresas fazer a conexão entre o mercado e a sociedade. É como se a organização desempenhasse o papel de ponte ao apresentar aos agentes de mercado a sociedade onde estão inseridos: ambiente complexo, desafiador e formada por interesses distintos. Ao mesmo tempo, as empresas desempenham o papel de apresentar à sociedade as potencialidades que o mercado possui, abrindo melhores condições para o desenvolvimento social. O Banco do Brasil é o único banco a operar em cidades como São Domingos do Capim, no interior do Pará. Por que olhar para novas fronteiras é tão importante? Eis o duplo papel. A empresa apresenta ao mercado praças inexploradas ou, ainda, opera no sentido de tirar as pessoas da informalidade e as insere no mercado formal. A formalização atende aos requisitos do direito, da propriedade e da construção da cidadania. Trata-se de dinâmica que apresenta ao mercado um ambiente inexplorado, ampliando o raio de alcance. Na outra vertente de articulação, cabe à empresa apresentar para a sociedade o potencial que o mercado pode oferecer — produtos de seguridade, previdência e crédito para educação e microprodução — como fonte de desenvolvimento social. A empresa conecta, abre frentes e horizontes de geração de renda do jovem que trabalha na Avenida Paulista ao que produz no interior do Pará. Outro exemplo de conexão se realiza na inserção de jovens no mercado graças ao apoio na estruturação de uma cooperativa de cozinheiras na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, quando da abertura da primeira agência bancária naquela localidade. Pouco tempo depois, uma micro e pequena empresa, também cliente do banco, passou a adquirir a produção de alimentos da cooperativa para refeição dos trabalhadores. Essa micro e pequena empresa, por sua vez, vende serviços para empresa do segmento Large Corporate, que exporta para a Europa, atendida pelo mesmo Banco, com filial em Paris, apoiando o processo de exportação. O que liga essas histórias reais? A capacidade empresarial de interligar vários agentes distintos na constituição de uma cadeia de valor gerando riqueza de forma sustentável e mostrando a interdependência social que há entre eles. Em toda a cadeia, há jovens em busca de oportunidades. Nenhuma solução terá sucesso sem a consciência do papel ético e social que as grandes corporações desempenham na conexão entre o mercado e a sociedade. As crises permitem o nascimento de nova ética nas atitudes. Revisitar a relação de interdependência entre os agentes econômicos estará definitivamente na pauta nos próximos anos, exigindo sensibilidade social, agilidade e atitude. Doutor em psicologia social pela Universidade de São Paulo (USP), é diretor de Gestão de Pessoas do Banco do Brasil Autor(es): CARLOS NETTO
Fonte: Correio Braziliense


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