Covid-19: gestores falam as lições e os desafios das faculdades brasileiras

A pandemia de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, virou de cabeça para baixo a realidade das faculdades, dos centros universitários e das universidades brasileiras. Em questão de poucos dias, elas se viram obrigadas a suspender aulas presenciais.

A maior parte das instituições migrou para o ensino remoto, respaldadas pelo MEC. Ao mesmo tempo, precisaram buscar soluções que atenuassem os efeitos da crise na rotina de alunos, professores e colaboradores.

Devido a necessidade de isolamento social, o desafio era – e ainda é – imenso às IES. Como organizar aulas a distância para milhares de alunos dos cursos presenciais? Como evitar perdas financeiras e, ao mesmo tempo, apoiar estudantes sem renda durante a paralisação?

Para saber como foi a tomada de decisão nessas e outras questões, o portal Desafios da Educação ouviu gestores de cinco instituições de ensino superior privadas:

– Guilherme Ligieri de Almeida, diretor administrativo da Faculdade do Futuro, em Manhuaçu (MG)

– Ruy Guerios, CEO da Faculdade Eniac, em Guarulhos (SP)

– Marcello Nitz, pró-reitor acadêmico do Instituto Mauá de Tecnologia, em São Caetano do Sul (SP)

– Rogério Augusto Profeta, reitor da Uniso, a Universidade de Sorocaba (SP)

– Marcos Kutova, gerente de EAD da PUC-Minas

Os depoimentos trazem lições de resiliência, empatia e engajamento. E mais: como o apoio da tecnologia para superar a crise vai mudar o futuro da educação.

Urgência para lidar com a suspensão

Guilherme Ligieri de Almeida, Faculdade do Futuro

“Estávamos observando o que acontecia no resto do mundo. Vimos algumas instituições da Europa parando e substituindo as aulas por atividades online. Cerca de uma semana antes da paralisações aqui, em Minas Gerais, preparamos nosso AVA (ambiente virtual de aprendizagem) e capacitamos professores. Assim, conseguimos planejar e ter uma estratégia de transição. Por isso, não houve ruptura. Desde o primeiro dia de paralisação, disponibilizamos a nossa plataforma para 1,8 mil alunos.”

Ruy Guerios, Faculdade Eniac

“Fizemos a implementação dos sistemas, treinamentos e capacitações na semana de 10 a 17 de março, quando apareceram as primeiras notícias de que a epidemia estaria chegando. Hoje, estamos batendo a marca de quase 13 mil alunos em ação, assistindo aulas ao vivo ou fazendo cursos online em nossa plataforma. Desde o colégio até a faculdade nos cursos de graduação, pós-graduação e extensão.

Além disso, disponibilizamos o Eniac Online, uma plataforma de cursos remotos gratuitos que oferecemos à comunidade, beneficiando 400 alunos. E abrimos aulas diárias e avaliações ao vivo em diversas disciplinas para jovens das redes estadual e municipal de Guarulhos, a partir do nono ano, alcançando mais 500 alunos.”

Marcello Nitz, Instituto Mauá

“Atuamos de forma síncrona com os nossos estudantes com múltiplas estratégias de aprendizagem mediadas por tecnologia. A transição foi rápida. São 3 mil alunos e 200 professores engajados nessa adaptação. Interrompemos uma semana para nos adaptarmos, e retomamos no dia 23 de março. Os resultados têm sido ótimos e vamos ajustando o que não estiver tão bom. No retorno ao campus físico, vamos retomar as atividades que são necessariamente presenciais, em especial as práticas”.

Rogério Augusto Profeta, Uniso

“Começamos a nos preocupar com esse assunto em janeiro. Temos alguns especialistas na área na universidade. Quando aconteceu o fenômeno na China, já tínhamos convicção de que estaríamos enfrentando isso aqui no Brasil e começamos a fazer a preparação do nosso sistema interno. Atualmente, são 8,5 mil alunos na graduação e pós-graduação tendo aulas presenciais em horários síncronos com os professores. Tudo isso com apoio de cerca de 12 plataformas virtuais de interação entre alunos e professores”.

Marcos Kutova, PUC-Minas

“A PUC-Minas criou em 12 de março um comitê estratégico para discussão dos riscos que a crise do coronavírus apresentava e quais as possíveis ações que poderiam ser tomadas. Até que, no dia 15 de março, decidimos pela implementação do período letivo remoto. O objetivo era fazer uma migração para o AVA sem prejuízo dos planos traçados para a educação presencial.

Criamos ambientes virtuais para todas as disciplinas, trazendo aproximadamente 14 mil turmas e pouco mais de 40 mil alunos e mais de 1,8 mil professores para a plataforma. Para todos, a forma mais tranquila era manter o ritmo da educação presencial. O desejo era executar o presencial nas suas características com apoio da tecnologia. Por isso, priorizamos o atendimento síncrono, com os professor a disposição dos alunos exatamente no horário da sua aula.”

Engajamento da comunidade acadêmica

Ruy Guerios, Faculdade Eniac

“O engajamento está sendo sensacional. Estamos em plena quarentena, com todos os nossos quase 500 colaboradores entre professores e técnicos trabalhando como nunca. Assim, mantemos a roda girando na Eniac e ainda conseguimos abrir frentes para atender a população que está em casa. No nosso centro de inovação, ainda estamos produzindo máscaras para os profissionais da saúde”.

Rogério Profeta, Uniso

“Os alunos têm a tecnologia no seu dia a dia e gostam de utilizá-la. O fato de ter que usar um celular, um app ou desktop chama atenção deles para essas alternativas. Quanto aos 430 professores, tivemos uma grata surpresa. Mesmo aqueles mais tradicionais acharam um caminho para se adequar ao uso das plataformas. E o mais interessante é que alguns deles estão fazendo trabalhos tão significativos nas plataformas de apoio virtual que acreditamos que isso vai provocar uma mudança positiva na dinâmica das aulas futuramente.”

Marcos Kutova, PUC-Minas

“Toda a sociedade depende de uma alternativa para não ficar dois ou três meses sem atividades. E o corpo docente entendeu a necessidade da sociedade não parar. Encontramos muitos professores interessados em participar da transição e que nos ajudaram a produzir tutoriais, manuais de referência dentro das suas áreas, ofereceram apoio pessoal aos colegas, e, em particular, se esforçaram para motivar os alunos a se engajarem com esse período letivo remoto.”

Marcello Nitz, Instituto Mauá

“Para mim, como gestor, ficará para sempre marcado o empenho dos docentes em prol dos estudantes nesse momento. A mobilização e resposta dada foram sensacionais. Foi impressionante a rapidez com que eles responderam a essa necessidade, todos empenhados em trazer para o aluno uma educação mediada por tecnologia de qualidade.”

Guilherme Ligieri de Almeida, Faculdade do Futuro

“Muita gente ficou preocupada porque parte do corpo docente não estava habituada com o uso de tecnologias. Alunos também tinham dificuldades com acesso a internet e uso das plataformas. Tivemos que capacitar todo mundo em tempo recorde, em um trabalho de amparo muito próximo aos alunos e professores. Nossa grande vitória foi superar as dificuldades e limitações internas de conhecimento nessas tecnologias. Devemos o sucesso desse projeto ao engajamento dos professores, o que repercutiu em uma experiência muito positiva para os alunos.”



Fonte: https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/licoes-covid-19-faculdades/


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