Lendas em torno de Bill Gates e Steve Jobs precisam ser superadas

Boa formação, progresso científico e tecnológico e uma bela dose de qualidade na gestão estão hoje no fundamento de qualquer iniciativa inovadora no mundo dos negócios. Engana-se quem pensa que os empreendedores que surgiram recentemente se formaram exclusivamente pelo brilhantismo de seus próprios cérebros.

Para termos inovação puxada pelo empreendedorismo nos negócios não

basta que essas palavras sejam repetidas como mantra, é preciso que o ambiente do mercado seja adubado com muita formação, muito suor e, obviamente, um pouco de ideias.

Esse é o problema. Os mitos que se fazem em relação ao empreendedorismo dificultam o tratamento deste conceito no debate público. Fazem parecer que o empreendedor surge como uma força incontrolável na ordem econômica. O risco desse descuido é o de não nos prepararmos adequadamente para essa nova fase de desafios econômicos. As lendas em torno de Bill Gates e Steve Jobs, que largaram suas universidades para tornarem-se grandes inovadores no Vale do Silício são, além de exceção à regra, uma parte circunscrita da história deles próprios e de suas empresas, que não corresponde ao padrão de inovação de qualquer área em qualquer lugar do mundo.

Pé no chão

Avanços significativos na área de tecnologia envolvem anos de preparação e estudos anteriores, seja nas universidades seja através de equipes multidisciplinares que vão trabalhar na resolução de problemas e na apresentação de soluções inovadoras. Supor que hoje uma startup ainda em início de vida vai concorrer com o Google em termos de disputa de mercado é tão ilusório como supor que um talentoso iniciante em xadrez pode surpreender o experiente Bob Fischer.

Em segundo lugar é errado creditar a qualidade de um empreendedor a toda pessoa que trabalha de forma autônoma. Essa visão rudimentar de gestão serve apenas para alimentar a ilusão dos despreparados para enfrentar o mundo de grandes inovações que a indústria 4.0 exige. O empreendedor que tem relevância no capitalismo e nos negócios é aquele que tem impacto na cadeia produtiva.

No início do século 20, quando Taylor implementou a produção em série, a proporção no chão de fábrica era de um gerente para 100 trabalhadores. Com o gerencialismo chegando às empresas, em 1948 o Bureau of Administrative Review catalogou uma média de um gerente para cada 30 trabalhadores, reduzindo em 2/3 a proporção de trabalhadores em esforço repetitivo para cada supervisor. Destacava-se na revista a necessidade de preparar melhor um maior número de profissionais para exercer trabalho de liderança. As modernas empresas de tecnologia têm cada vez menos hierarquia entre seus funcionários, construindo a noção de times. A inovação e o aprendizado organizacional venceram o procedimento padronizado da burocracia repetitiva. Ainda que uma não substitua a outra é evidente que as melhores condições de trabalho ficam para ambientes realmente empreendedores.

Ciclos

Às portas do século 21, a economia mudou de modo radical. Desde a indústria 4.0 feita pela automação e pelas impressoras 3D, seguindo para o aplicativo que controla a produção através de comandos gamificados, as possibilidades de inovação e de agregar valor são inúmeras. Abriu-se uma janela de oportunidades a novas formas de pensar a produção e sua relação com o mundo do trabalho. Planejar os diversos setores de educação, fomento, crédito, infraestrutura e tecnológico para acompanhar a marcha das mudanças é fundamental.

Esse critério que divide os inovadores do trabalho rotineiro e repetitivo na cadeia produtiva tem reflexos macros e também é forma de organizar países. Países que não atualizarem seu sistema produtivo e suas condições de trabalho não vão fazer parte do seleto grupo de líderes na economia global. O Brasil tem todas as possibilidades de tornar-se um dos países líderes, mas para isso será preciso mudar drasticamente seu sistema produtivo e a forma com que seus profissionais atuam no mercado de trabalho.

Dados do Sebrae mostram que cerca de 25% das empresas abertas no Brasil em 2016 fecharam no primeiro ano de existência. Quando recortamos esse quadro para o micro e pequeno empreendedor, a proporção cresce para 43%. Isso representa um prejuízo enorme em termos de valor. Cada negócio fracassado tem efeito na economia e na própria organização microeconômica do trabalhador. Segundo o próprio Sebrae, 34% dos donos de novos negócios no Brasil têm ensino fundamental incompleto e este é um dos argumentos do despreparo. Nossos números são desesperadores e precisam de resposta urgente.

Mão na massa

A pergunta, portanto, não é se devemos ou não tratar de empreendedorismo na análise pública e social, mas como devemos conduzi-lo? Além disso, olhar à frente é fundamental. Para ficar apenas em um exemplo, o sistema de horas de trabalho fixo controlado através de processos burocráticos tornou-se desatualizado e corresponde à parte subdesenvolvida da divisão internacional do trabalho. Se quisermos – como país, como organização ou como profissionais – disputar espaço entre os líderes do século 21 será preciso pensar que os novos profissionais de gestão terão de trabalhar em equipes multidisciplinares e que desenvolvem projetos. Essas equipes terão de contar com profissionais com inteligência para a arte e para a matemática, para a contabilidade e para a estética.

Escolas do futuro precisam preparar seus quadros para essa nova realidade. Para isso é preciso romper certas lendas e mitos que nos remetem para a formação de youtubers, de estética vazia e da falsa ilusão profissional. Isso aumenta a responsabilidade das escolas e universidades, mas também das instituições públicas de suporte. Precisamos de políticas públicas, fomento e incentivos públicos com vistas à modernização da nossa economia e do nosso trabalhador. Inovar não é algo espiritual ou espontâneo que surge em visionários. É muito mais que isso. É um projeto nacional que cria inteligência e coordena formação, projeto de longo prazo, crédito social e econômico e gestão de todos esses escassos recursos.


Fonte: https://revistaensinosuperior.com.br/bill-gates-steve-jobs/


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