Laura Mattos: Aulas a distância devem proporcionar não só conteúdo, mas conforto aos alunos em tempos de isolamento

As aulas a distância que já começam a ser ministradas ou preparadas para terem início na próxima semana, quando todos os colégios devem estar fechados em razão do coronavírus, mais do que uma tentativa de que os alunos não percam conteúdo por tanto tempo, devem ser encaradas como uma oportunidade de que se reforce o sentido de comunidade que as escolas devem ter.

Isso não é pouco, diante de sensações de medo e de solidão que nos assolam a todos, e particularmente às crianças e adolescentes.

E, pandemia à parte, pode-se ainda refletir sobre o fato de essa busca por proximidade em meio ao distanciamento se dá quando a educação no Brasil vive tempos de intolerância, em que professores, estudantes e famílias são instados a se verem como inimigos, quando deveriam se unir para o aprendizado.

O otimismo aqui, claro, tem limite. Na rede pública, será obviamente mais complicado se pensar em uma educação a distância que funcione adequadamente.

A Secretaria de Educação de São Paulo, por exemplo, informou à coluna que está procurando parcerias com empresas de tecnologia para lançar aplicativos e melhorar a conexão entre escolas e alunos.

De qualquer forma, isso ainda está em fase de protótipo, e deve-se imaginar que não seja a maioria que tenha aparelhos adequados para ler uma grande quantidade de conteúdo e ainda fazer lições. O celular ajuda, mas não é ideal.

A estrutura faz toda a diferença, e isso fica nítido com a experiência realizada no último sábado pelo colégio Porto Seguro, voltado à classe AB, que tem 9.000 alunos em suas unidades no Morumbi (zona sul de São Paulo) e no interior do Estado.

Dos estúdios no colégio –são 51 no total— 45 professores ministraram aulas online para 3.000 alunos, conectados por meio de tablets ou de notebooks, obrigatórios na lista de material escolar do fundamental 2 (sexto ao nono anos) e ensino médio.

As aulas ao vivo a distância já vinham sendo planejadas. De origem alemã, o colégio conhece a experiência do Snow Day (dia de neve) em algumas cidades da Alemanha, em que os alunos, obrigados a ficar em casa, se conectam online com as escolas.

Em fevereiro deste ano, em São Paulo, uma enchente levou a unidade do Morumbi a ter de fechar por dois dias, o que acendeu um novo alerta para a necessidade do ensino online. O coronavírus terminou por acelerar de vez o processo.

Nesta segunda-feira (16), com 10% dos alunos presentes fisicamente à escola, as aulas foram ministradas para 2.850 pela internet, por meio da plataforma Teams, da Microsoft, em que a plateia pode fazer perguntas.

A adesão já no primeiro dia foi quase total, considerando que são 3.224 alunos no fundamental 2 e médio, para os quais houve aulas online.

Para o infantil e o fundamental 1, a opção foi elaborar roteiros de estudo, que necessitam da participação dos pais em maior ou menor escala, a depender do conteúdo e da idade.

Ainda não se sabe se essas aulas poderão ou não ser consideradas como dias letivos, ou se tudo terá de ser reposto presencialmente. Diante de uma crise sem precedentes, as autoridades de ensino devem avaliar a questão paulatinamente.

Seja como for, esse canal de comunicação deverá ser utilizado, mais do que para passar o conteúdo pedagógico clássico, para fornecer informações e discutir o momento que enfrentamos, buscando dar conforto a todos.

Como refletiu Silmara Casadei, diretora do colégio Porto Seguro, inverte-se o paradigma de que são os alunos que têm que ir à escola. Agora a escola é que precisa bater à porta dos alunos e não os deixar sozinhos.



Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/laura-mattos/2020/03/aulas-a-distancia-devem-proporcionar-nao-so-conteudo-mas-conforto-aos-alunos-em-tempos-de-isolamento.shtml


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