Coronavírus: menos aulas presenciais, mais EAD

Os efeitos da pandemia do novo coronavírus não ficam restritos às pessoas infectadas. Na prática, o temor em relação à Covid-19, a doença causada pelo vírus, afeta diferentes áreas da economia, incluindo a educação.

São quase 377 milhões de estudantes com aulas paralisadas ou suspensas ao redor do mundo. As interrupções afetam 46 países, como China, Estados Unidos, Irã, Japão, Líbano, Paraguai e Itália – segundo atualização de quinta-feira, 12 de março, da Unesco, órgão da ONU para educação e cultura.

A paralisação temporária das atividades presenciais, por ordem governamental ou não, é uma tentativa de reduzir o risco de contágio e disseminação do vírus entre alunos.

Na manhã de quinta-feira (12), mais de 124 mil pessoas foram infectadas pelo coronavírus ao redor do mundo – registrando 4,6 mil mortes decorrentes da doença. O Brasil tinha 907 casos suspeitos e 69 casos confirmados. Todos os números devem aumentar nos próximos dias e semanas.

Com o avanço do coronavírus, o Semesp e a Abmes divulgaram comunicado com orientações. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, recomendou que simpósios, seminários e eventos sejam evitados, e passou defender um plano de aulas remotas e EAD como alternativa.

A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) recomendou que “bolsistas que cumprem missões internacionais evitem o trabalho em lugares onde há transmissão sustentada – em que o paciente infecta outra pessoa sem ter viajado para fora do país – do coronavírus“.

Coronavírus faz EAD crescer

No ensino superior dos Estados Unidos, país com cerca de 700 pessoas infectadas, a paralisação das aulas presenciais começou na semana passada e de forma independente nas universidades de Washington e Stanford.

Nesta semana, a medida continuou com a adesão do Amherst College e das universidades de Columbia, New York, Princeton, da California, Berkeley, Harvard, entre outras. São pelo menos 50 faculdades americanas fechadas, segundo Bryan Alexander, especialista em educação e tecnologia da Universidade de Georgetown, que começou a compilar um banco de dados on-line sobre o tema. E essa lista deve crescer.

“Com a entrada do vírus no Brasil, e cada vez mais rápido, é importante que as instituições de ensino pensem num plano de gestão de crise, porque logo logo isso vai chegar em alunos, professores e funcionários”, alerta Márcia Loch, diretora do Núcleo de Educação a Distância da Universidade Unigranrio, ao Desafios da Educação.

A Unicamp, de Campinas (SP), anunciou a suspensão das atividades entre 13 e 29 de março. A ESPM cancelou as atividades em Porto Alegre (RS) e São Paulo (SP) até 20 de março, a exemplo da Cásper Líbero. Há casos de diagnóstico confirmado alunos da USP, da PUC-SP e da escola Aveneus.

A recomendação na maioria das escolas não é para paralisar totalmente as atividades, mas que professores e alunos trabalhem juntos através de ambientes virtuais de aprendizagem (AVA ou , na sigla em inglês). Ou seja, que as aulas EAD sejam adotadas numa tentativa de diminuir a propagação do coronavírus.

Thiago Chaer, CEO da aceleradora Future Education afirma:

A disrupção educacional é uma das respostas que podemos implementar em larga escala em resposta ao Covid-19. As edtechs podem ter papel fundamental nesse processo urgente, com soluções tecnológicas, ensino online e apoio pedagógico a pais, alunos e comunidade.

Na Universidade Harvard, em Massachusetts (EUA), todas as aulas serão dadas a distância por prazo indeterminado a partir de 23 de março, quando os discentes retornam do recesso de primavera (semana de folga que compõe o calendário escolar americano). A decisão foi divulgada em um comunicado na terça-feira (10).

Dado o prestígio e influência de Harvard no mundo acadêmico, a expectativa é de que outras instituições de ensino – americanas e de outros países, de ensino superior e ensino básico – sigam o mesmo caminho, suspendam as aulas presenciais e adotem a EAD.

Será que as instituições de ensino estão preparadas para apoiar centenas de professores e tutores que se deslocam rapidamente do modelo presencial para o online? E de engajarem os alunos em uma nova onda de aprendizagem?

Cuidados e receios à EAD na crise

Na China – primeiro país a registrar o surto e que contabilizava 80 mil pessoas infectadas em 11 de março –, as escolas estão fechadas e tentam seguir a recomendação do Ministério da Educação, que pediu para “parar as aulas, não a aprendizagem“.

Por isso, ainda em fevereiro, o governo anunciou a criação de uma plataforma virtual que oferece conteúdos e recursos educacionais em áreas como prevenção do coronavírus, disciplinas curriculares, filmes e jogos.

Mas nem todos os países têm um suporte estatal como o da China para enfrentar a crise. Na verdade, a imensa maioria das escolas e universidades tem de fazer as próprias escolhas referentes ao Covid-19. A adoção de aulas a distância tem sido a opção de muitas delas.

Se a tendência se confirmar, o elevado grau de desigualdade da EAD deve ficar ainda mais evidente – inclusive no Brasil. Dúvidas e medos podem surgir.

Alunos: podem ter dificuldade de acesso a computadores e a internet fora da escola;

Professores: podem não ter a habilidade pedagógica e tecnológica necessária para adaptar a aula presencial à EAD;

Instituições de ensino: podem carecer de infraestrutura de TI necessária para alta demanda de aulas virtuais;

Cidades menores: podem ter o serviço de internet sobrecarregado, e prejudicar o processo de ensino–aprendizagem.

No Brasil, experiência com EAD dará vantagem

Se as instituições de ensino superior do Brasil optarem por adotar as medidas americanas, parte delas pode enfrentar dificuldades e ter que agir de improviso.

“As IES que não ofertam EAD muitas vezes não disponibilizam aos alunos um LMS estruturado de apoio ao ensino presencial. Nesse contexto, alguns professores e alunos acabam encontrando formas de compartilhar conteúdos de forma voluntária, utilizando ferramentas como e-mail, listas de WhatsApp e grupos em redes sociais“, diz Fernanda Furuno, conselheira de inovação da Abed.

Outros exemplos incluíram aulas por áudio e vídeo, através de plataformas como Zoom, Skype, YouTube e até Facebook Live.

A comunicação entre alunos e professores deve ser intensificada por meio do LMS. “Aqui, todos os professores usam o AVA como suporte das disciplinas presenciais. Então eles e os alunos já estão dentro desse sistema”, comenta Márcia Loch, da Unigranrio.

A experiência permite que a IES atenda sem desespero o aumento de demanda de aulas remotas, uma vez que docentes e discentes já estão habituados a usar e explorar a plataforma, usando as bibliotecas digitais e o Blackboard Collaborate – ferramenta exclusiva do Blackboard Learn para videoconferências, que proporciona a professores e alunos uma experiência colaborativa e interativa online, podendo ser acessada por computador, tablet ou smartphone.

“Quanto ao conteúdo”, acrescenta Jacqueline Lameza, diretora de operações EAD do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal), “o professor, de sua casa, pode fazer curadoria de conteúdo em bibliotecas digitais e na internet. Ele deve buscar fontes interessantes e confiáveis. O processo de ensino-aprendizagem, então, será feito mediante o compartilhamento desse conteúdo no ambiente virtual, por meio de ferramentas para publicação, comentários e verificação da participação do aluno.”

Gustavo Hoffmann, que é diretor do Grupo A (mantenedora do portal Desafios da Educação) e fellow da Universidade Harvard, afirma que a experiência com EAD é determinante para o sucesso da estratégia online diante do avanço do coronavírus.

Se a IES já operar dentro dos 40% de carga horária a distância, fica mais fácil transferir boa parte da presencialidade para a EAD diante de uma pandemia como essa do novo coronavírus.

Hoffmann ressalta que a reprodução do ensino presencial na EAD não se resume simplesmente a fazer uma aula por Skype com a turma. “Existe tecnologia e metodologias de ensino de ponta para reproduzir uma sala de aula presencial num ambiente virtual de aprendizagem. É um desing instrucional totalmente diferente, e quem tem experiência com certeza sai na frente.“

A adversidade pode gerar uma oportunidade. Uma das lições que o novo coronavírus deixa é que as instituições de ensino precisam superar a morosidade, a tradição e o medo para trás, e fazer, finalmente, um movimento forte e rápido de adoção de tecnologias educacionais.

Os planos das escolas. E o combate às fake news

Por enquanto, a maioria das escolas, cursinhos e instituições de ensino superior brasileiras estão adotando medidas básicas de prevenção. Isso inclui:

reforço na limpeza de ambientes escolares, como salas e corredores;

orientar os alunos lavar as mãos com frequência;

orientá-los também a cobrir boca e o nariz ao tossir e espirrar, de preferência com um lenço descartável;

procurar um serviço médico, caso a pessoa apresente (ou tenha contato com alguém que apresente) sintomas como febre, tosse e dificuldade de respirar.

Gilberto Alvarez, diretor executivo do Cursinho da Poli, preparatório para vestibular com sedes em São Paulo (SP), diz que a instituição já tem um plano de contingência estruturado para o caso de as aulas presenciais serem paralisadas por algumas semanas. Psicólogos e pedagogos farão parte do programa. Os conteúdos serão gravados e editados em vídeo. Também haverá a produção de podcasts específicos para orientar o estudo.

Numa medida mais abrangente, também por prevenção, o Colégio Positivo – instituição privada com 14 unidades em Curitiba (PR) – sugeriu que alunos que estiveram em áreas e países com alto número de casos de coronavírus fiquem em casa por 15 dias. Não há alunos infectados. Os pais apoiaram a medida, segundo o diretor-geral do Colégio Positivo, Celso Hartmann.

O diretor disse que, para não acarretar prejuízo ao desenvolvimento dos alunos que estão em casa, eles recebem a visita regular de professores para a realização de tarefas e exercícios. Mas e se os casos aumentarem exponencialmente no Brasil ou nas regiões da escola?

“Já fizemos um plano, semelhante ao que praticamos no caso do H1N1 (subtipo A do vírus da gripe conhecido como influenza, que provocou uma pandemia global em 2009), em que a escola parou por duas semanas”, afirmou Hartmann ao Desafios da Educação.

O prazo de incubação do coronavírus é de mais ou menos 14 dias. Então, se for necessário, vamos parar as aulas, avisar as autoridades e trabalhar com listas de exercícios por meio do nosso aplicativo de agenda e de tarefas de casa.

No caso da Avenues São Paulo, escola internacional e de elite localizada na capital paulista, 100 alunos foram afastados após contato com um colega infectado por coronavírus. Em comunicado enviado na segunda-feira, a escola informou que os estudantes não serão recebidos na instituição até 23 de março.

A ideia é que a unidade passe por uma limpeza “para reduzir a probabilidade de transmissão do vírus”.

A cobertura dos casos do novo coronavírus e da Covid-19 pela imprensa tem sido feita em tempo real. O Ministério da Saúde criou um site e um app, disponível para Android e IOS. Em nível federal, foi criado um Centro de Operações de Emergência, que reúne representantes das áreas da saúde, assistência e educação.

O números de escolas fechadas devido ao novo coronavírus pode ser conferido no site da Unesco. Já a Organização Mundial da Saúde concentra as atualizações sobre os índices mundiais de infecção.


Fonte: https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/ead-alternativa-coronavirus/


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