Menores salários, mais tempo desempregadas: pesquisa aponta as desigualdades da mulher no mercado de trabalho

É inegável que a luta das mulheres por direitos iguais já avançou muito. Mas dados compilados pelo Dieese, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, a Pnad Contínua, do IBGE, mostram que, quando o assunto é a inserção das mulheres no mercado de trabalho, ainda há muito o que avançar. A começar pelo salário.

A pesquisa aponta que, no Brasil, o salário das mulheres é, em média, 22% menor que o dos homens: R$ 2.495 para eles e R$ 1.958 para elas. No Rio Grande do Sul, essa diferença de rendimento aumenta para 28% (com média de R$ 2.863 para os homens e R$ 2.068 para as mulheres).

A discrepância fica ainda maior quando se fala em profissionais com Ensino Superior: o rendimento mensal médio das mulheres que concluíram a faculdade é 38% menor do que o dos homens na mesma condição.

Neste final de semana, quando é celebrado o Dia Internacional da Mulher (neste domingo, dia 8), o Diário Gaúcho mostra dados que demonstram a desigualdade de gênero no mercado de trabalho, conta histórias de duas mulheres trabalhadoras da Região Metropolitana e reafirma: igualdade – no mercado trabalho e fora dele – é um direito de todos.

O dia de Brenda da Silva Rocha, 22 anos, moradora do bairro Rio Branco, em Canoas, começa cedo. Depois de levar os dois filhos, Bernardo, cinco anos, e Valentina, três meses, para a creche, ela segue para o seu trabalho – há dois anos, é atendente em uma loja de assistência técnica no Pop Center, no centro da Capital. A jornada se inicia às 8h30min e segue até as 16h30min, atendendo clientes pessoalmente e pelo Whats App – o estabelecimento envia seus produtos, como peças para celulares, por exemplo, para diversas cidades dentro e fora do Estado – e decidindo qual é a melhor forma de entrega.

Quando fala sobre seu trabalho, Brenda é segura, articulada, mostra que sabe do que está falando. Já são dois anos na função atual, que ela desempenha com gosto. Mas ela começou no mercado de trabalho há mais tempo, com apenas 15 anos.

– Fiz um estágio em um órgão público ainda quando estava no colégio. Depois disso, comecei a trabalhar com a minha mãe e com um tio, que tinham estandes no Pop Center. Nunca mais saí deste ramo – conta ela.

Quando a mãe decidiu fechar o negócio, Brenda conseguiu o emprego na loja atual, também por meio de um familiar. Sua parte favorita é justamente tentar ajudar o cliente:

– Falar direto com eles é a parte que mais gosto: atender, conversar.

O gosto pelo trabalho e a experiência, porém, não livram Brenda e suas colegas – a maioria dos atendentes da loja é composta por mulheres – de, eventualmente, precisar lidar com o preconceito.

– Já vi acontecer com colegas e já aconteceu comigo. A minha relação é direta com os clientes, com o público. E eles são tratados com o maior respeito. Só que, muitos, quando acontece um problema, gostam de falar mais alto. Por verem que do outro lado da bancada tem uma mulher, eles acham que podem se impor, e que a gente vai ceder. Tem preconceito, sim – conta ela.

Quando depara com situações assim, o caminho de Brenda é, geralmente, o do diálogo:

– Tento sempre manter a calma, responder calmamente. Claro que é uma relação entre vendedor e cliente, mas precisa de respeito. Não é só porque um cliente é homem que ele pode tudo. A gente fica triste com tudo isso.

Mesmo com uma grande quantidade de mulheres inspiradoras e empreendedoras em seu entorno, quando convidada a eleger uma como sua grande inspiração, Brenda não titubeia: escolhe sua mãe, Daniela, que atualmente vive em Capão da Canoa.

– Ela e o meu pai sempre tiveram uma boa relação, mas ela sempre foi uma mãe solteira. Trabalhou muito para que nada faltasse, é uma inspiração para que eu faça o mesmo pelos meus filhos. Hoje, ainda bem, a gente vê muitas mulheres que lutam, trabalham, passam por cima de tudo para ter o que sonham.

Entre elas, o desemprego é maior

Outro ponto crítico para todos os gêneros, mas que atinge mais as mulheres, conforme apontou a pesquisa, é o desemprego. A taxa de desocupação entre elas é de 13,1% no Brasil, ante 9,2% entre os homens. No Rio Grande do Sul, a desocupação fica em 8,8% (homens) e 5,7% (mulheres).

Voltando ao Brasil, mais um dado chama a atenção: entre as mulheres desocupadas, 37% estavam procurando emprego há mais de um ano – taxa que é de 27% entre os homens. É justamente o caso de Claudia Andréia Freitas Severo, 44 anos, moradora do bairro Agronomia, em Porto Alegre. A carteira de trabalho dela, que já trabalhou como empregada doméstica e auxiliar de serviços gerais, não é assinada há mais de dois anos.

– Tenho experiência, já trabalhei em casa de família e na limpeza em vários lugares, até no Pronto-Socorro (de Porto Alegre) e varrendo as ruas. Mas faz tempo que não surge nada fixo – conta ela.

Mãe de um total de nove filhos, Claudia ainda precisa garantir o sustento de três deles, de 16, 11 e 10 anos. Suas despesas também incluem o aluguel da casa onde vive, no Agronomia.

– Neste tempo todo, apareceu só uma faxina fixa, de uma pessoa que me chama uma vez por mês. Não é sempre que aparece trabalho, mas enquanto isso, me viro do jeito que posso, com outras limpezas, juntando material para reciclagem – conta.

Neste tempo todo, ela não desistiu da carteira assinada, mas a busca não é nada fácil:

– Às vezes eu fico cansada de procurar. Muitas vezes uma das minhas filhas (Ingrid), que também está parada, vai comigo. Ela tem experiência, mas não consegue nada. Está difícil para muita gente.

Divisão de tarefas nem sempre é justa

Gabriela Lacerda, juíza do Tribunal Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul, é coordenadora do Comitê de Equidade de Gênero, Raça e Diversidade do órgão. O grupo foi criado com o objetivo de levar os servidores – e, posteriormente, a sociedade – a refletirem sobre estas questões. Ao mesmo tempo, em seu trabalho, a juíza convive com alguns dos problemas que as mulheres precisam ultrapassar na vida profissional.

Para ela, um dos grandes desafios para as mulheres no mercado de trabalho é a chamada divisão sexual do trabalho – que quer dizer a atribuição de tarefas ou responsabilidades diferentes a homens ou mulheres apenas pelo fato de serem homens ou mulheres. Frases como “Cuidar das crianças é serviço da mãe”, “Lavar a louça é coisa de mulher” exemplificam esta questão.

– Isso fica claro principalmente quando se trata de cuidados: cuidar da casa, das pessoas, geralmente é algo que recai muito mais sobre a mulher e, muitas vezes, não é remunerado. Isso faz com ela tenha uma dupla ou até tripla jornada – explica ela, que segue:

– Em outros casos, o trabalho até recebe pagamento, como para as trabalhadoras domésticas, mas é mal remunerado.

A pesquisa do IBGE também mostra dados neste sentido. Ela aponta que, em média, as mulheres gastam 95% mais tempo aos afazeres domésticos do que os homens. Por semana, os homens usam, em média, 10 horas e 54 minutos para este tipo de tarefa. No caso delas, o número aumenta para 21 horas e 18 minutos.

Na casa de Brenda, em Canoas, a divisão do trabalho da casa não é feita de acordo com o gênero, mas sim com o tempo de cada um. Levar e buscar as crianças na escola, por exemplo, é responsabilidade da atendente. O marido, o operador de empilhadeira Alan, 32 anos, tem outras tarefas. Mas é inegável: ao chegar em casa, Brenda enfrenta praticamente uma segunda jornada de trabalho, semelhante a milhares de mulheres em todo o Brasil.

– Atualmente, meu marido auxilia bastante com a bebê. Mas o meu filho mais velho, até pelo nascimento da irmã, exige muito de mim. Dou banho, dou janta. E, claro, sempre tem muita coisa da casa para fazer – conta.


Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/educacao-e-emprego/noticia/2020/03/menores-salarios-mais-tempo-desempregadas-pesquisa-aponta-as-desigualdades-da-mulher-no-mercado-de-trabalho-ck7gzdtww00g301oamlb4gqj2.html


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