Acreditar é o mais importante

Gislenia nasceu no interior do Piauí, no bairro mais pobre de uma cidade chamada Betânia. Todos os dias, a carroça passa para pegá-la, junto com outras crianças, e levá-la à escola, que fica a dois quilômetros de sua casa. Apesar de não saber muito bem para que a educação vai servir, Gislenia é super interessada em aprender. Mas a garota é percebida pela professora como parte da meninada que vem lá do baixão, então ela a trata como quem não vai aprender quase nada, já que as as famílias desse lugar são tão pobres e limitadas que mal conseguem interagir. Como muitas outras crianças e jovens Brasil afora, Gislenia poderia ser um minúsculo diamante perdido no meio de uma praia de areia. A menina de fato não existe, porém ela não é exatamente uma ficção, pois a cidade e as condições no Piauí são reais. Eu estive em Betânia e posso afirmar que tanto lá como em outros lugares semelhantes do nosso país existem milhares de Gislenias.

Comprovadamente, pesquisas indicam que a capacidade do professor de acreditar no aluno e de acreditar que todas as crianças são capazes de aprender é o fator mais determinante para o sucesso do estudante, muito mais do que sua condição socioeconômica. Andreas Schleicher, criador do Pisa, destaca em seu livro Primeira classe: como construir uma escola de qualidade para o século XXI que, de forma geral, quanto menor a renda e o nível social do estudante, menores as chances de ele ir bem na escola, e vice-versa. “Essas desvantagens são um desafio em em qualquer lugar, mas em certos países a desvantagem percebida é maior que a desvantagem real. Tal percepção acaba impactando, para muito pior, o desempenho dos alunos”, analisa Schleicher.

Nesse mesmo livro, Schleicher conta a história real de Yuan Yuan Pan, uma aluna brilhante da Universidade de Tsinghua, na China, que foi sua estagiária em 2015. Por coincidência, naquele ano, Schleicher estava com uma viagem marcada para a província de Sichuan, onde a moça nasceu, e disse a ela que gostaria de incluir a escola onde ela havia estudado em suas visitas escolares. Yuan o desaconselhou, pois a sua cidade era uma das mais pobres da província e sua escola, uma das piores. Ela, então, revelou que só tinha sido admitida na mais prestigiosa universidade chinesa porque seus professores reconheceram o seu talento e fizeram de tudo para lhe dar apoio. Portanto, na China existe uma política para treinar os professores a enxergar as potencialidades dos alunos independentemente de onde eles tenham nascido ou crescido.

No Brasil, a diferença nas expectativas que os professores têm sobre o sucesso de alunos pobres e ricos é gritante, como demonstrou uma pesquisa publicada pela Fundação Carlos Chagas agora em janeiro. No 9o ano, por exemplo, 90% dos alunos de nível socioeconômico mais alto têm professores que acreditam que eles conseguirão concluir o ensino médio. Entre os alunos de nível socioeconômico mais baixo, esse percentual cai para 39%. Quando a pergunta é sobre as chances que os estudantes têm de ingressar numa universidade, 77% dos alunos ricos têm professores que acreditam que eles serão capazes de realizar esse feito, enquanto só 10% dos alunos pobres têm professores que apostam nisso. Essa postura só contribui para manter o nosso país entre os cinco países com maior desigualdade educacional do mundo.

Os resultados de quase duas décadas de PISA provam que pobreza não precisa e não deve ser sina. Em Hong Kong, Macau e Vietnã, por exemplo, mais de 60% dos alunos provenientes das camadas mais pobres do espectro socioeconômico se classi­ficaram entre os 25% de melhor desempenho entre todos os alunos do mundo na edição de 2015 do teste internacional. Na Estônia, em Cingapura e no Japão, um em cada dois dos alunos mais desfavorecidos obteve o mesmo resultado. Isso aconteceu porque esses países tiveram a capacidade de estimular talentos extraordinários em alunos ordinários, garantindo que todos os estudantes se bene­ficiassem de um ensino de qualidade.

Como provou o psicólogo Robert Rosenthal em seu estudo seminal, Pygmalion in the Classroom, de 1968, quando um professor classifica e separa, mesmo que inconscientemente, seus alunos entre bons e ruins, ou entre talentosos e medíocres, ele manda uma mensagem àqueles em situação desfavorável de que não adianta eles se esforçarem, pois seus destinos já estão selados. Essa percepção do professor, então, acaba se tornando realidade, numa espécie de profecia autorrealizável. Esse trabalho, publicado há 52 anos, deveria ter sido levado mais a sério e, certamente, ainda é tempo de olhar para ele com o respeito e relevância que merece, pois não existe nada mais atual do que admitir que essa profecia se concretiza.

A solução para esse problema se concentra em dois pilares. O primeiro é a formação de professores. É preciso treinar os professores para que eles mudem sua forma de enxergar os alunos, passando a ter como meta desenvolver o potencial de cada um (fica aqui a sugestão de um livro memorável que li na década de 1990 – The Art of Possibility, de Ben Zender). O segundo pilar é a chamada educação ativa e o trabalho colaborativo nas salas de aula, onde a “mistura” de alunos mais avançados com outros ainda com dificuldades têm trazido resultados tangíveis de aprendizado para todos.

Somente quando mudarmos o modelo mental na sala de aula é que seremos capazes de progredir em muitos aspectos da nossa educação e da nossa sociedade.


Fonte: https://educacao.estadao.com.br/blogs/ana-maria-diniz/acreditar-e-o-mais-importante/


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