Carnaval x Educação: valorização x fracasso

Nesta semana, na sexta-feira, 21, tem início o carnaval, a maior festa popular brasileira, único período em que todos são iguais, nos camarotes ou nas ruas, nos blocos ou nas escolas de samba. É uma celebração pagã, em meio a eventos católicos, como a Quaresma ‒ período de preparação para a Páscoa do Senhor ‒ e os retiros espirituais de diversas denominações cristãs.

O carnaval, todavia, é um evento surgido fora do cristianismo. E não tem nenhuma conexão com a filosofia cristã. É somente uma festa pagã e dela todos podem participar.

Há pessoas que passam o ano todo preparando-se para o carnaval. E há o carnaval fora de época, uma prática meramente comercial, que roda o Brasil inteiro, entre um carnaval e outro.

Grande parte da população brasileira ‒ talvez a maioria ‒ curte o carnaval. E na sexta-feira, à noite, como nos versos do compositor Assis Valente, veste uma camisa listrada e sai por aí e em vez de tomar chá com torradas vai beber parati… E só volta na quarta-feira de cinzas, depois do meio dia. É o carnaval.

Geralmente comemorado no mês de fevereiro, o carnaval coincide com o mês de início do ano letivo da educação básica e superior, nas escolas públicas e da livre iniciativa. Contudo, não se observa o mesmo entusiasmo na volta às aulas e na volta ao carnaval. A prioridade é a festa pagã, desde as que celebram a alegria saudável à libertinagem. Reclama-se da compra do material escolar, das mensalidades escolares, mas não com as despesas com os preparativos, as fantasias e tudo o mais que envolve o carnaval.

Esse é o retrato da educação em nosso país. Reclamamos de nossos dirigentes e parlamentares que não agem, no exercício de seus mandatos, tendo a educação como a prioridade das prioridades. Mas de onde vieram esses políticos? Do seio da população brasileira, que coloca a educação no quinto ou sexto lugar das prioridades. As famílias, na sua grande maioria, aceitam uma escola pública ruim sem protestos, pacificamente, mas se revoltam contra a violência, o aumento do preço dos transportes, dos combustíveis. Vão às ruas, fazem passeatas, mas a educação básica pública de qualidade não faz parte desses protestos justos. Até hoje, apenas uma família, em Santa Catarina, foi à Justiça para cobrar a pluralidade de ideias na educação básica e denunciar a militância ideológico-partidária de professores militantes ou, até milicianos a serviço de interesses que apequenam a Educação, com E maiúsculo.

Nenhum país conseguiu sair da miséria, da violência, da corrupção sistemática e da convivência com políticos corruptos ou populistas, exploradores da miséria alheia, sem uma educação básica de qualidade. A educação superior de qualidade será, sempre, reflexo da educação básica de qualidade.

Quantos prêmios Nobel temos entre os professores-pesquisadores de nossas universidades, quantas patentes registradas?

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes ‒ Pisa (Programme for International Student Assessment), realizado, trienalmente, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico‒ OCDE, versão 2018, entre estudantes na faixa etária dos 15 anos, revelou que, entre 78 países que participaram do exame, o Brasil obteve a seguinte colocação: Leitura: 57; Matemática: 70; Ciências: 66. Esse desempenho dos estudantes brasileiros revela a incapacidade na compreensão de textos, resolução de cálculos e questões científicas simples. Entre os dez países da América do Sul que participaram do Pisa/2018 estamos, em média, atrás do Chile, Uruguai, México, Costa Rica e Colômbia. E a sociedade brasileira fica alheia a esse problema. E os eleitores continuam votando em candidatos que não priorizam a educação.

Há um excesso de valorização do carnaval em relação a falta de prioridade que se dá à educação de forma geral. Muitas das prefeituras dos 5.570 municípios brasileiros financiam, em parte ou totalmente, entidades carnavalescas e shows de artistas famosos, enquanto suas escolas não têm biblioteca e nem espaços de aprendizagem adequados para uma educação de qualidade. Quem deve financiar o carnaval são os carnavalescos ou a iniciativa privada. Dinheiro público deve ser aplicado nos serviços públicos, como a educação básica.

Creio que devemos atentar para a declaração de Thomas Jefferson (1743/1826), o terceiro presidente dos Estados Unidos, após a independência, no período 1801/1809: “Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível”. É caminho que esperamos para o Brasil.


Fonte: https://www.belasartes.br/diretodareitoria/artigos/carnaval-x-educacao-valorizacao-x-fracasso


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