Estônia: Um país 4.0 e com a melhor educação do Ocidente

No último mês de dezembro, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou o ranking 2018 do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa – Programme for International Student Assessment). Por se tratar do último mês do ano e os noticiários estarem ocupados com vários acontecimentos expressivos (Fogo na Austrália, Conflitos no Oriente Médio e tantos outros), o pouco que se falou sobre os resultados do estudo foram focados no Brasil, que ficou em 63º lugar, de um total de 70 participantes. No entanto, o grande destaque deveria ser a Estônia e, no texto abaixo, vou explicar porquê devemos olhar para o pequeno país banhado pelo mar Báltico com a melhor educação da Europa (e do Ocidente).

Primeiramente, precisamos entender o que é o Pisa. Ele é um estudo comparativo internacional, realizado a cada três anos pela OCDE, que “oferece informações sobre o desempenho dos estudantes na faixa etária dos 15 anos, vinculando dados sobre seus backgrounds e suas atitudes em relação à aprendizagem; e também aos principais fatores que moldam sua aprendizagem, dentro e fora da escola”, segundo o INEP. Ou seja, muito mais que uma mera avaliação quantitativa, o estudo leva em conta o contexto que o estudante está inserido.

Agora que entendemos o que é o Pisa, vamos entender quem é a Estônia. O país, com uma população de pouco mais de 1 milhão, está rodeada pela Suécia, Finlândia (ambas via mar Báltico), Letônia e Rússia (com quem tem fronteiras terrestres). Com a Rússia, são pouco mais de 2 horas da fronteira, até São Petersburgo, considerada por muitos o “centro cultural da Rússia.” No contexto histórico, a Estônia passou por diversas dificuldades nos últimos 100 anos. Durante a 2ª Guerra Mundial, por estar localizada em uma região estratégica, o país foi ocupado pela URSS e, em 1942, invadido pelo exército nazista. Com o fim da Grande Guerra, o país passou a fazer parte da União Soviética, tornando-se a República Socialista Soviética da Estônia.

Com a queda da Cortina de Ferro, a Estônia aumentou seus laços comerciais com a Europa. O setor de serviços, que praticamente não existia na era soviética, teve um rápido crescimento no início dos anos 1990 e, desde 2010, tanto a taxa de desemprego, quanto a dívida pública vêm caindo registrando, respectivamente, 5.3% e 8.4% em 2018. Além de uma forte economia, o país é muito mais que uma referência em administração pública digital, é um grande laboratório de estudo para gestores públicos de todo o mundo. Dos 1.3 milhão de estonianos, cerca de 98% possuem RG digital, documento que inclui um chip e garante acesso a mais 500 serviços do governo (saiba mais no texto “O que podemos aprender com a digitalização e o governo 4.0 da Estônia?”, do Instituto Tellus).

A educação estoniana: Valorização, acesso e autonomia

Agora que você já teve uma breve apresentação sobre a Estônia, vamos entender o porquê do país estar entre as 10 melhores no Pisa. “‘O sucesso da educação na Estônia se baseia em três pilares’, afirmou à BBC News Brasil a ministra da Educação e Pesquisa do país, Mailis Reps. ‘A educação é valorizada pela sociedade, o acesso é universal e gratuito e há ampla autonomia (de professores e escolas). Os estonianos realmente acreditam que a educação abre uma ampla gama de possibilidades’.” Ainda segundo a BBC, “a educação (na Estônia) é gratuita e inclusiva em todos os níveis, o que significa que todos têm igual possibilidade de inserção. ‘Também oferecemos acesso igual a vários serviços de apoio baseados nas necessidade, como refeições gratuitas na escola, fornecimento de materiais didáticos, serviços de aconselhamento, além de subsídios em transporte e, a partir do ensino secundário, acomodação’, afirma Mailis Reps, ministra da Educação e Pesquisa da Estônia.”

Para podermos entender melhor, aqui está um pequeno comparativo. Nos resultados do Pisa publicados em 2016, a Estônia ficou em 3º lugar em Ciência, enquanto o Reino Unido ficou em 15º e, em Leitura, a Estônia ficou em 6º lugar, enquanto o Reino Unido ficou em 22º. Um dos ingredientes deste sucesso é que a Estônia tornou a educação de alta qualidade nos primeiros anos uma prioridade para o país. Além disso, a Estônia visa muito mais os padrões nórdicos (de ensino), do que o europeu.

Enquanto os modelos mais tradicionais, incluem aulas separadas, o modelo estoniano trabalha com aulas multidisciplinares. Para completar, o modelo de sociedade digital que a Estônia possui atualmente permite que muitos dos estudos sejam feitos via online. Os livros também são emprestados eletronicamente, o que ajuda os estudantes no grande volume de deveres de casa. Durante o período escolar, os alunos precisam aprender língua e literatura estonianas, primeira e segunda línguas estrangeiras, matemática, biologia, geografia, física, química, humanidades, história, civismo, música, arte, artesanato, tecnologia e educação física. Mas também são comuns aulas de história das religiões, design e economia.

Outro ingrediente para o sucesso da educação estoniana está centrada no professor. Atualmente o país investe 6% do PIB na educação – o mesmo percentual que o Brasil – mas, enquanto o governo brasileiro investe, no ensino básico, R$ 6,6 mil por aluno ao ano, o governo estoniano aplica o equivalente a R$ 28 mil. Já o salário-base dos professores é de 1.250 euros (aproximadamente R$ 5.600) – um incremento de renda de 80% na última década.

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Além disso, o professor possui total autonomia no ensino. As diretrizes do ensino estão no currículo nacional, mas como aplicá-las fica, em grande parte, a critério de cada escola. Isso significa que as metodologias e até mesmo os ambientes de sala de aula podem ser definidos de acordo com o plano dos professores. “O currículo determina os resultados gerais. A maneira de alcançá-los é escolhida pelos professores”, afirmou Mailis Reps, em entrevista para a BBC. E, ao contrário de países como o Brasil, onde professores são selecionados por concursos públicos, os candidatos a diretores de escolas são entrevistados por um conselho formado por pais, professores e representantes do governo municipal. A ideia é analisar suas habilidades de educação e de gestão. Na hora de contratar um professor, a responsabilidade pela sabatina cabe ao diretor.

Ainda na entrevista para a BBC Brasil, Reps foi questionada se o modelo estoniano poderia ser aplicado ao cenário brasileiro. “Cada país é diferente e não existe uma receita ou um modelo secreto que possa ser usado apenas copiando tudo”, afirmou a ministra. As ressalvas são óbvias: discrepâncias de tamanho populacional, problemas históricos ainda não resolvidos ou mesmo diferenças culturais. “O modelo da Estônia foi formulado considerando um pequeno país. Circunstâncias brasileiras são completamente diferentes”, completa Reps.


Fonte: http://inovasocial.com.br/inova/estonia-melhor-educacao-ocidente/


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