O futuro da profissão de professor em debate no Brasil

A Jaqueline decidiu ser Professora quando estava ainda na escola. Ela passou em uma universidade pública, cursou todo o bacharelado e a licenciatura, fez estágios. Mas, quando pisou pela primeira vez em sala de aula como docente sentiu um choque: não estava preparada para aquele desafio. “O que eu não tive e que preciso, agora, estudar e entender para conseguir ensinar e não só apagar incêndios e sobreviver?”, ela se questionou à época.

Hoje Professora de História da rede pública de São Paulo, ela também faz parte da Rede Conectando Saberes (saiba mais sobre isso aqui). No último dia 30, ela participou do debate online O Futuro da Profissão Professor, organizado pelo Todos Pela Educação ao lado de Alexsandro Santos, doutor em Educação, Professor e coordenador do curso de Pedagogia da Feduc (Faculdade do Educador) e Olavo Nogueira Filho, diretor de Políticas Educacionais do Todos, responsável pela mediação da conversa.

Confira logo abaixo os destaques desse papo! E para acessar a íntegra da conversa clique aqui.

Formação para o que?

Olavo iniciou o debate com informações da pesquisa Profissão Docente, realizada pelo Todos Pela Educação em parceria com o Itaú Social no ano passado, em que apenas 29% dos Professores entrevistados concordaram que a formação inicial tenha preparado para a vivência da profissão. Ele também destacou as discussões recentes sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) da formação docente, cujo propósito é ajudar a enfrentar uma série de desafios que hoje encontramos nos cursos que formam os Professores.

Sobre essa temática, Alexsandro foi categórico: “Nossos cursos se concentram no conteúdo e se esquecem dos saberes pedagógicos e do conhecimento de quem são os alunos e como eles aprendem”. Para ele, o fato de o Brasil ter universalizado o acesso à Educação Básica nas últimas décadas é uma conquista muito relevante, porém, os cursos de Pedagogia e as Licenciaturas não estão preparando os docentes para o cotidiano escolar atual, que reflete no quadro de alunos a diversidade do País: diferentes estruturas familiares, situações econômicas e conhecimentos acumulados. A Professora Jaqueline foi enfática em dizer que a universidade está formando para a pesquisa e não para a sala de aula.

Já nasceu Professor?

Tanto Alexsandro como Jaqueline rebateram o mito de que ser um bom Professor é um dom inato e destacaram a necessidade de desmistificar a profissão docente. Jaqueline contou quando descobriu o que poderia mudar a atitude de seus alunos: “Cada sala funcionava de um jeito. Percebi que eles se sentiam muito mais motivados quando eu fazia algum elogio ou compensava positivamente quem se comportava bem. Como mágica, a sala passou a me respeitar mais. Mas eu sabia que não era mágica, era técnica”. Alexsandro também frisou a importância do preparo: “Os cinco primeiros anos são decisivos para caracterizar o Professor. Se ele passa esse tempo abandonado pelas políticas públicas, fica difícil mudar as práticas adotadas. Não podemos deixá-los à própria sorte no início de suas carreiras”.

Olavo reforçou que esse tipo de mentalidade, em que o ofício do docente é considerado trivial, é contraproducente para a profissionalização da área. “Para ser Professor é preciso de muito rigor, conhecimento, uma sólida estrutura de formação, boa carreira e condições de trabalho”, afirmou.

Valorização docente

A valorização da profissão também foi debatida. Olavo destacou que 49% dos Professores não recomendariam sua profissão a alunos do Ensino Médio, segundo a pesquisa Profissão Docente. Para Jaqueline, além da questão salarial, é importante que a sociedade valorize o trabalho do Professor. Alexsandro aprofundou os efeitos de políticas que reconheçam o valor do docente: “não dá para assegurar a aprendizagem dos alunos sem garantir boas condições ao profissional”. Já Olavo evidenciou a necessidade de ouvir os docentes. “As discussões da valorização e das políticas para os Professores devem ser feitas por quem conhece os desafios do dia a dia de sala de aula”.

Ser Professor transforma vidas

Para exemplificar o tipo de relacionamento que Jaqueline tem com os seus estudantes, ela contou sobre três alunas suas que buscaram fazer cursos pré-vestibulares e decidiram ensinar seus colegas de escola o que elas estão aprendendo. “Sinto que se eu não estivesse com elas, talvez as coisas seriam diferentes, elas não saberiam que existisse tantas universidades públicas. E esse é o lugar onde elas devem estar, meninas da periferia, negras, fortes, que resistem às violência que quem está às margens da sociedade sofre. É isso o que me motiva todos os dias”.

Alexsandro finalizou o debate demonstrando a importância da Educação e das instituições de ensino para cada criança brasileira: “a escola pública salva vidas. Ser Professor dentro dessa instituição significa fazer um esforço brutal para corrigir um tanto das desigualdades sociais que o Brasil tem”.



Fonte: https://educacao.estadao.com.br/blogs/educacao-e-etc/o-futuro-da-profissao-de-professor-em-debate-no-brasil/


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