Aprender a pesquisar e pesquisar para aprender

— Mãe, por que a árvore chama “árvore” e a floresta chama “floresta”?

— Ihh, não sei, filha. Vamos investigar juntas e tentar descobrir a origem dessas palavras?

— Vamos! Pega seu computador e escreve “árvore”, “floresta”, “quem deu o nome”.

Não há dúvida de que a internet facilitou muito nossa vida e nos deu acesso a um volume de informações que há algumas décadas nem sonhávamos encontrar. Ferramentas de busca como a do Google ou mesmo projetos de enciclopédias coletivas, como a Wikipedia, podem sanar, em segundos, várias de nossas dúvidas.

Ter condições de alcançar mais informações e em menos tempo é uma conquista a ser comemorada. Mas exige algumas reflexões importantes.

A primeira delas é que nem sempre há respostas prontas para as nossas perguntas — ao contrário do que imagina a menina de seis anos que protagonizou o diálogo acima.

Essa criança sabe que existem ferramentas de pesquisa na internet e já tem alguma ideia (que precisa ser refinada) de como as palavras-chave funcionam. Mas ainda carece do entendimento de que ela mesma tem o papel fundamental de dar sentido à informação encontrada.

Com isso, chegamos à segunda reflexão essencial: informação não é sinônimo de conhecimento; é ponto de partida para sua construção.

No livro “Por que aprender história quando tudo está no seu celular”, o professor e pesquisador Sam Wineburg (Universidade de Stanford) lembra que, antigamente, localizar uma informação era o principal desafio de quem fazia uma pesquisa. Era preciso tempo e paciência para consultar arquivos e vasculhar prateleiras na biblioteca.

Com a internet, encontrar dados, imagens e diversas outras informações sobre um tema não é mais um obstáculo em si. “Nosso browser faz um excelente trabalho e somos bombardeados por conteúdo. Mas o que fazemos com ele?”, questiona Wineburg.

Em outras palavras, como tiramos o melhor proveito do que a internet pode oferecer?

Nossa ideia de letramento precisa ser ampliada para garantir que crianças e jovens tenham as habilidades necessárias para acessar, filtrar e compreender a informação disponível. Esta é uma das missões da educação midiática.

Os alunos têm muito a ganhar quando professor e escola atuam como mediadores de sua experiência na internet. Ou seja, ainda que haja mais informações ao alcance de todos, a atuação do professor é mais importante do que nunca.

No caso das pesquisas, precisamos ajudar crianças e jovens a entender o funcionamento das ferramentas de busca, conhecer os mecanismos por trás delas e identificar a qualidade dos resultados obtidos. Na prática, há várias atividades para iniciar esse trabalho no ambiente escolar.

Algumas sugestões que podem ser incorporadas em projetos que envolvam a realização de pesquisa (em qualquer disciplina):

1. Pedir que os alunos pesquisem na internet as mesmas palavras, ao mesmo tempo, para analisar como os resultados obtidos em uma ferramenta de busca podem ser diferentes, dependendo do histórico de navegação de cada computador, tablet ou celular;

2. Propor buscas com palavras-chave distintas, para explorar os mecanismos de classificação das informações pelas ferramentas. Usar, por exemplo, duas ou mais palavras entre aspas e sem as aspas e verificar se os resultados obtidos são os mesmos;

3. Praticar busca de imagens e busca reversa de imagens, incentivando os alunos a avaliar se o conteúdo pesquisado é inédito ou se foi retirado de algum outro contexto;

4. Incentivar um debate sobre a ordem em que os resultados da busca aparecem na página, para que os alunos percebam que nem sempre o primeiro é o que traz a informação mais precisa ou completa (pode ser simplesmente um anúncio);

5. Desvendar os “bastidores” de construção da Wikipedia, para entender como os verbetes são atualizados, o que acontece quando há discordância sobre o significado de alguma palavra ou expressão e de que forma acessamos o histórico de edições de cada página;

6. Analisar na Wikipedia a descrição dada a palavras ou expressões sensíveis para sua comunidade para eventual proposta de edição e para refletir sobre o grau de confiabilidade da plataforma.

Aprender a pesquisar é o primeiro passo para que possamos, efetivamente, construir conhecimento com a informação encontrada.


Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/11/aprender-a-pesquisar-e-pesquisar-para-aprender.shtml


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