Duas bibliotecas diferentes do que você está acostumado

22/01/2014 - Quando eu era um estudante do Ensino Médio lembro que em meu colégio a retirada de livros de procedência internacional era vedada aos alunos. Você podia levar para casa os clássicos de Machado de Assis ou coletâneas de exercícios de matemática de vestibulares brasileiros, mas, caso quisesse ler Harry Potter no original, não podia retirá-lo de dentro dos limites barulhentos da Biblioteca. Não preciso dizer que nossa biblioteca não era lá muito popular, ao menos não com o fim que se espera, idealmente, de uma biblioteca. Eu ficava revoltado de não poder retirar nenhum livro estrangeiro. O temor do colégio com relação ao empréstimo de livros editados fora do Brasil era que nós os perdêssemos caso os levássemos para casa e, por serem livros estrangeiros, fosse difícil ou oneroso conseguir novas cópias. De certo modo, parecia que aquela biblioteca existia para si mesma, para se conservar, já que grande parte de seus livros não era lida. Assim, fiquei bastante interessado numa palestra do Diretor da Biblioteca Parque de Manguinhos, Alexandre Pimentel, proferida na Flip (Festa Literária de Paraty) 2012. Em tal mesa, intitulada “A Leitura no Espaço Público”, houve a discussão de um modelo de bibliotecas criado e popularizado pela colombiana Silvia Castrillón, o qual propõe bibliotecas mais voltadas à comunidade. Antes de continuar gostaria de esclarecer que a Biblioteca Parque de Manguinhos está localizada na Favela de Manguinhos, Rio de Janeiro. Atentando a tal fato, achei curioso saber que tal biblioteca, localizada num espaço habitado por uma população pobre, iletrada e sem hábito de leitura, era bastante popular entre os moradores do local, enquanto as bibliotecas que conheço na Vila Mariana, Lapa e Pinheiros em São Paulo são praticamente abandonadas às moscas. Como exemplo, pare e pense quantas pessoas você conhece já foram a uma biblioteca pública? E quantas o vão frequentemente? Na palestra, ficou claro que, devido à sua proposta, a Biblioteca de Manguinhos era um espaço de encontro da comunidade, de promoção de atividades para jovens e, obviamente, de leitura, estudo e empréstimo de livros! Aliás, o Diretor do projeto exaltava o cuidado da população para com os livros, muito maior do que o, em geral, esperado e o alto índice de devolução, maior que o da Biblioteca Nacional! Um fato curioso é que um dos livros mais retirados é um de Oscar Niemeyer, pois, segundo o diretor, as pessoas o tem como uma referência cultural. Outro ponto destacado pelo diretor do projeto é que, a despeito de ser toda feita de vidro, à época do debate, em 2012, ela nunca havia sido depredada ou vandalizada. Como apontado por Pimentel “uma biblioteca pública não é nem pode ser apenas um espaço para ler, pesquisar e emprestar livros”. Retomando a frase do diretor da Biblioteca Parque de Manguinhos no último parágrafo gostaria de apresentar outra iniciativa relacionada a bibliotecas que, embora servindo à descrição da frase, não se parece em nada com a biblioteca brasileira citada. O Centro Rolex de Aprendizado procura, como descrito em artigo da Der Spiegel, ser um “mercado de ideias”. No local, os visitantes (na sua maioria estudantes, dado que o Centro faz parte do Instituto Federal Suíço de Tecnologia, em Lausanne) podem comer, dormir, interagir, ler, mexer em apetrechos digitais e comprar. O objetivo do centro é promover o debate de forma a desenvolver o aprendizado ao invés de ficar só no aprendizado, o que, de certa maneira, é um conceito um tanto quanto amplo. No entanto, tal objetivo torna-se mais claro se analisando as pesquisas desenvolvidas no local que buscam a criação de um computador interpessoal ou mesas que mudam de cor caso uma discussão passe a se assemelhar a um monólogo. Edição: Samy Dana e Octavio Augusto de Barros. Por Roberto Amaral Santos. GVcult
Fonte: Do UOL


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