Complexity Thinking para uma nova percepção de mundo

É um enorme privilégio poder fazer parte do ecossistema do Programa “Saúde na Era Pós-Digital: o ser humano no centro dos cuidados”. E quando falo ecossistema, refiro-me aos organizadores, pesquisadores, speakers, participantes, alunos, empresas e startups. A diversidade, a qualidade e a motivação de todos até o momento antecipam aí uma interação e um produto final sem precedentes.

Como consultor global desse programa, gostaria de adiantar alguns assuntos que na minha opinião fazem toda a diferença para o sucesso dele que se inicia com a formação que ocorrerá dentro da nossa plataforma de aprendizagem. Acredito que esse é um passo importante para criarmos uma espécie de baseline, um ponto de partida comum, onde todos os envolvidos na formação possam avançar com seus objetivos específicos, mas em torno de uma visão compartilhada.

Hoje, eu gostaria de começar abordando uma perspectiva que baliza a nossa formação, sobretudo em relação aos desafios emergentes que afetam o Brasil e o Mundo. Em seguida, gostaria de falar um pouco de governança na área de saúde global e de desenvolvimento humano, o qual o Brasil certamente faz parte.

Na sequência, eu consideraria missão cumprida se pudesse pautar uma abordagem lançada pela OMS em 2017 que se chama One Health, se também pudesse salientar alguns aspectos da abordagem teórica de Sistemas Complexos Adaptivos (SAC), e por último falar de como essa abordagem pode nos ajudar a mudar a nossa percepção dos cuidados de saúde.

Então vamos lá.

Compara-se muito a revolução tecnológica que estamos atravessando com a revolução industrial do século 18. Não resta dúvidas de que estamos passando por um período acelerado de transformações sociais, políticas, econômicas e ambientais com profundos impactos – não apenas na nossa sociedade, mas na nossa saúde.

A universalização das inovações tecnológicas abre novas possibilidades de produção e consumo, e também abre novas oportunidades de negócios, sobretudo na área da saúde. Da mesma forma que a revolução industrial – com a fabricação em larga escala – gerou instabilidade e alterou a dinâmica das antigas sociedades agrárias, agora é a revolução tecnológica que parece substituir as novas formas de organização cultural e socioeconômica, gerando instabilidade e reestruturando a fundação de sistemas pré-existentes, incluindo sistemas de cuidados na saúde.

Um ponto importante é que essas novas tecnologias não mudaram somente a forma como interagimos com o mundo. Talvez, mais importante do que isso, elas mudaram tanto a escala da nossa interação com o mundo quanto a nossa percepção dele. Interagimos e nos interconectamos como nunca. Converso com minha família do outro lado do mundo todos os dias, e minha namorada, aqui em Toronto, viabiliza o atendimento médico de pacientes por meio da telemedicina, conectando pacientes a médicos que muitas vezes estão do outro lado do país. Penso que essa mudança de percepção é um ponto chave, porque é a partir dessa nova nova percepção que vamos identificar problemas e soluções para nossas específicas necessidades.

Um exemplo é que hoje em dia é relativamente simples obter o microbioma ou o mapeamento do genoma de qualquer pessoa disposta a ter seu código genético guardado em uma base de dados que pode estar a milhares de quilômetros de distância. Mais incrível do que isso é ter a possibilidade de tratar ou de se antecipar ao possível surgimento de doenças, com base nessas informações.

Também podemos hoje em dia, com cada vez mais precisão, simular o impacto de desastres naturais, epidemias, e seus efeitos na saúde humana. A partir dessas projeções podemos compreender a extensão do impacto de um período de estiagem na saúde de pessoas e animais.

Com todas essas ferramentas e com toda essa capacidade de analisar de forma integrada dados e indicadores de diferentes áreas, temos a oportunidade de reestruturar a forma como abordamos essas transformações socioeconômicas, ambientais e culturais, que tem um impacto direto na nossa saúde.

Esse nível de interação e interconectividade também está refletido na natureza indivisível e integrada da agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), onde progresso em saúde está intimamente relacionado ao progresso em outros setores. Lançado em 2015 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a agenda dos ODS é composta por 17 objetivos e 169 indicadores. Eu entendo que o desafio aqui não é de contemplarmos todos esses indicadores exaustivamente. O objetivo principal talvez esteja menos relacionada a “atingir todas as metas,” e mais relacionada a acompanhar a realização progressiva desses indicadores por diferentes atores (pessoas e entidades do setor público, privado e terceiro setor), mesmo quando esses atores se ocupam de temas nem sempre relacionados a sua esfera de atuação.

Seria fantástico se no Brasil diferentes níveis do setor público e o setor privado se orientassem e se conectassem meticulosamente em torno de uma agenda em comum (não necessariamente a agenda ODS), cada um complementando e reportando avanços dentro de sua esfera.

Nós aqui nessa formação estaremos trabalhando para fomentar conexões entre toda a equipe (organizadores, pesquisadores, participantes e speakers), com o objetivo de agregar valor e idealizar novas iniciativas e oportunidades de negócio.

Tirando a agenda ODS, será que não existiria um jeito mais específico de se abordar a interconectividade e até a transdiciplinariedade de temas relacionados à saúde? Sim, existe. Com o aumento da nossa capacidade de mapear o funcionamento do nosso corpo e de mapear o funcionamento de fenômenos naturais, em 2017 a Organização Mundial da Saúde avançou com a iniciativa One Health.

Resumidamente, One Health é uma abordagem desenvolvida para facilitar a formulação de políticas, legislação, pesquisas e intervenções na qual múltiplos setores se comunicam e trabalham conjuntamente para atingir melhores resultados de saúde.

Como exemplo, e ainda segundo a OMS, essa abordagem é particularmente relevante nas áreas de segurança alimentar, controle de zoonoses (doenças que se espalham entre animais e humanos), e resistência a antibióticos. Ou seja, de pesquisadores a profissionais cuja expertise esteja relacionada ao ecossistema da saúde, toda a rede de atores engajados em promover a saúde deveria se unir para criar respostas conjuntas a esses e outros problemas.

Pessoalmente, eu espero em breve ter a oportunidade de participar de um grupo de pesquisadores e profissionais das mais diversas disciplinas, que estão engajados em entender melhor como fazer frente a ameaça global e emergente das doenças infectocontagiosas e da resistência a antibióticos. Esse exemplo é um tema extremamente complexo, e que repercute na área de atuação da maioria de nossos speakers e participantes. E é somente um exemplo.

Em se tratando de temas complexos, chegamos à parte final deste texto. O que seriam problemas complexos, e qual a abordagem ideal para fazer frente a esses problemas?

Uma definição de problemas complexos é aquela que trata de problemas não lineares, cuja abordagem pode ser feita de diferentes perspectivas, que muitas vezes são paradoxais, e que podem ter diversas soluções.

Como vimos anteriormente, o tema cuidados da saúde (healthcare) pode ser considerado um problema complexo porque cuidados da saúde está sujeito a várias interferências externas ao sistema (segurança, desenvolvimento econômico, pressões sociais), não depende somente de um fator (multifatorial), é um problema que é dinâmico (oscila com o tempo), e faz parte de uma rede. Se passarmos a perceber cuidados de saúde como um problema complexo, talvez fique mais simples incorporar a perspectiva de diferentes pontos de vista (ou disciplinas) em torno do mesmo problema. Talvez seu serviço ou produto seja capaz de preencher alguma lacuna e contribuir para a solução desse problema.

Muito bem. Em vez de entender healthcare como um problema complexo, minha sugestão é de avançar e inverter um pouco a perspectiva para tentar entender a problemática de healthcare como parte desse sistema interdisciplinar e interdependente, a que a abordagem da agenda ODS e a abordagem One Health se referem. Uma forma de se articular essa problemática, e que vem ganhando força nos últimos anos, passa pelo conceito de Sistemas Adaptativos Complexos (SAC).

Mas o que são Sistemas Adaptativos Complexos?

Sistemas naturais (nosso sistema imunológico, ecossistemas) e sistemas artificiais (Inteligência Artificial, redes computacionais, hospitais e sistemas de saúde) são caracterizados por comportamentos aparentemente complexos, que emergem como resultado de interações entre um grande número de componentes de um sistema, e em diferentes níveis de organização. Essas relações são não-lineares, fixadas em determinados espaços e tempo, com elevado grau de incerteza, e de resultados imprevisíveis, o que traduz bem a dinâmica de sistemas como o sistema único de saúde brasileiro (SUS), outros sistemas de saúde compostos por diferentes hierarquias, e até as interações socio-ecológicas que todos fazemos parte.

Alguns autores indicam que a formulação de problemas multidisciplinares começou a se valer dessa abordagem a partir dos anos 80, sobretudo com a criação do Instituto Santa Fé no Novo México, pioneiro nesse tipo de investigação. A abordagem de SAC é caracterizada por se basear em teorias de física, química e biologia, e também em conceitos de matemática, ciências da computação e – por exemplo – a teoria evolutiva.



Fonte: https://ofuturodascoisas.com/complexity-thinking-para-uma-nova-percepcao-de-mundo/


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