O DNA inovador da Arizona State University

A Arizona State University (ASU) foi escolhida pelo 4º ano consecutivo a IES mais inovadora dos Estados Unidos, segundo a revista US NEWS. Rankings podem e devem ser contestados, mas, sem dúvida, a ASU conquistou um status de instituição inovadora. Já visitei diversas universidades no mundo e em poucas a cultura da inovação é institucionalizada.

A inovação não é de um setor, de um grupo de professores ou uma ideia vazia que surge nos discursos dos líderes. Com o texto que apresento, espero despertar nos líderes de IES o interesse pela ASU e fazer algumas provocações. O atual Reitor Michael Crow assumiu a instituição em 2002, com aproximadamente 50 mil estudantes. Hoje, a instituição tem em torno de 110 mil estudantes. Muitas pessoas podem considerar que ele está na IES há muito tempo, todavia, sua capacidade de reinvenção é permanente, e os resultados financeiros e acadêmicos da ASU o colocam como um dos mais importantes reitores dos EUA na atualidade.

Ele entende a universidade com uma startup. Foi criado um setor de inteligência que não tem uma função específica. O objetivo do setor é tornar viável as novas ideias e projetos e assumir a concepção dos projetos inovadores, com a pessoa ou equipe que dê origem ao projeto. Já o Instituto de Design de Universidades tem o papel de ser o arquiteto das mudanças institucionais. Enfim, na Arizona State University, os dois setores estratégicos funcionam como uma espécie de mola propulsora da criatividade e das inovações. De um lado, o papel é fortalecer a criatividade, do outro, o desenho cuidadoso dos projetos.

Lá, um projeto pedagógico não é elaborado de forma isolada e, às vezes, sem vínculo institucional. Qualquer projeto para ser implementado é previamente desenhado e alinhado com a missão institucional. Alguns podem pensar que isso é burocracia. Não é. Aliás, o reitor procura destruir as burocracias e as resistências. Ele é contra os organogramas rígidos. As equipes de gestão são formadas por pessoas de diversas áreas. Foi declarado pelos dirigentes estratégicos da ASU que há momentos em que é preciso “explodir” alguns setores para recomeçar em uma nova concepção.

No Brasil, suponho que ainda cometemos o erro de valorizar a burocracia e a formalidade. É comum termos equipes isoladas e negarmos projetos e ideias, às vezes, sem conhecê-los. Temos chefes que não dialogam e micropoderes que criam barreiras na dinâmica da instituição.

Na ASU, valoriza-se a cultura do SIM. Sim para as ideias, para o diálogo, para a abertura ao novo. Um líder não é o dono do poder. Ele é o responsável por organizar as ideias e os projetos. Ele orienta e conduz as mudanças. Na ASU, não há esquizofrenia institucional, onde as diversas partes da instituição estão soltas e pouco conectadas. A instituição valoriza o perfil dos líderes. Há muito cuidado com a fase de escolha e capacitação dos líderes, que constantemente são convidados a opinarem sobre a dinâmica da instituição.

Quase 40% dos estudantes da ASU são de baixa renda e a intenção é aumentar esse percentual. A instituição pretende ser reconhecida pelo que inclui, não pelo que exclui. O desafio é buscar financiamento para as pessoas que não podem pagar as anuidades. Por exemplo, em 2002, o investimento estatal era de 9,23 milhões; em 2019, foi de 3,14 milhões. A queda foi brutal. Por outro lado, nesse mesmo período, o orçamento da ASU subiu de 750 milhões para 3,2 bilhões.

A ASU avança nas matrículas de estudantes com poucas oportunidades financeiras e valoriza a diversidade em um contexto onde o investimento do Estado diminui. Imaginem no Brasil. Se o Estado cortar pela metade o investimento nas IES públicas ou se definitivamente deixar de criar incentivos para o setor privado? Provavelmente, entraríamos em uma crise sem precedentes. Não estamos acostumados a ficar órfãos do Estado. Lembro que a ASU é uma instituição pública estadual.

O que fez a ASU? Buscou outras fontes de financiamento, especialmente, através da cooperação com o setor produtivo e da realização de pesquisa que gera recursos para a instituição. A pesquisa na universidade precisa gerar impacto e responder aos desafios da sociedade. A aprovação do orçamento para as pesquisas depende de seu vínculo com a missão institucional.

A ASU trabalha com temas como Inteligência Artificial, Robótica, Energia, Água, Habitação, Big Data, Agricultura, por exemplo. Em todos os casos, buscam-se soluções para a sociedade.

A ASU declara que instituiu um modelo que representa a “nova universidade americana”. Os valores são aparentemente simples: contribuir para alavancar a economia da região onde está estabelecida, atuar para a transformação social, valorizar o empreendedorismo, fazer pesquisa com impacto, focar no sucesso do estudante, fortalecer a interdisciplinaridade, ter engajamento social, ser global. Provavelmente, alguns desses valores estão declarados nos documentos de nossas instituições.

Sim, sem dúvida a ASU tem em seu DNA a inovação. Em junho, durante três dias, participei de um programa de formação de líderes nas universidades, com um grupo de 21 pessoas que representam o Consórcio STHEM Brasil e a Universidade Corporativa do Semesp. Voltamos convictos de que precisamos instigar mudanças em nossas IES brasileiras. A ASU, sem dúvida, é uma instituição do século 21. Leitor, e a sua IES, como está em relação à inovação? Será que estamos mais para o século 20 do que para o 21?


Fonte: https://www.semesp.org.br/inovacao/noticias/o-dna-inovador-da-arizona-state-university/


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