Ozires Silva – uma história de amor com a educação e com o Brasil

07/04/2014 - “Por que o Brasil não fabrica aviões?”, com esta pergunta, Ozires Silva e seu amigo de infância, Zico, Benedicto Cesar, questionavam o desenvolvimento do Brasil através da aviação, principalmente nas suas longas convivências com o Aeroclube de Bauru, no interior de São Paulo. Dois jovens brasileiros que já sonhavam com as asas da aviação, e do próprio desenvolvimento industrial do Brasil. Ozires Silva é uma pessoa ímpar, seja pela sua história de vida profissional, como também uma pessoa singular, um ser humano diferente dos demais, principalmente em se preocupar ao máximo com a educação do próximo. Eu sempre falo que “graças a DEUS”, tive a honra e o prazer de conhecer Ozires Silva, e trabalhar diretamente com o mesmo durante quase três anos, que para mim parecem vinte anos. Muito conhecimento, e fundamentalmente, o compartilhamento e a troca de saberes são marcas em Ozires Silva. Sua identidade se confunde, e se integra, com a história da inovação e do conhecimento no Brasil, principalmente pela criação e desenvolvimento da Embraer, hoje uma companhia queridinha do Brasil e do mundo. Seu nome é reconhecido no mundo inteiro, principalmente nas grandes universidades, empresas de alta tecnologia, governos das grandes potências, e nos maiores círculos da ciência moderna, inclusive os mesmos que indicam os grandes nomes para o Prêmio Nobel. Lembro uma situação que passei uma vez, quando ministrava aula na Columbia University em Nova York, e fui interpelado por um aluno que gostaria de ouvir um pouco sobre a vida de Ozires Silva. Além de contar um pouco, eu só tive uma palavra para representar Ozires Silva e sua vida, amor. Amor pelo que faz, amor pelo conhecimento, amor pela família, amor pelo Brasil. Mas uma coisa é fundamental na história de vida de Ozires Silva, sua simplicidade e preocupação com o desenvolvimento da educação. Hoje como Reitor da Unimonte na cidade de Santos, Ozires não deixa de lado sua preocupação em construir uma sociedade através da agenda mais importante para a vida humana, a educação. Com tantos indicadores negativos e atrasados que o Brasil ainda insiste em ter, o exemplo de Ozires Silva sempre precisa ser lembrado e aplicado. Precisamos ter persistência e rigor com o tema educação, em todos os níveis. Lembro uma vez que Ozires Silva me falou, “Fábio, pense a cadeia toda, o ser humano e o conhecimento têm capacidades para o todo, não para uma parte só”. Quando penso nisso, me lembro que muitos setores no Brasil só ficam em uma parte, e não na cadeia toda produtiva, e por uma simples razão, falta de conhecimento, ou pelo menos da capacidade de aplicar educação para formar este conhecimento. Quer um exemplo, veja o setor do café e de outras commodities. Ozires Silva, com seus 83 anos bem vividos para a inovação, competitividade, educação e família, representa um Brasil que todos queremos. De um jovem pobre e carente, que através da educação conseguiu construir um futuro melhor para si, e para o próprio Brasil. Como diria um grande dirigente internacional, “se tivéssemos mais Ozires Silva, o mundo seria menos complicado”. Junto com a sua esposa, Therezinha Bueno Silva, que faleceu recentemente, mas que em todos os momentos foi seu porto seguro e sua alma gêmea, Ozires Silva sempre pensou que a educação é realmente a única agenda que pode transformar este país. É óbvio que educação é uma agenda chata para muitos políticos, mas a sociedade não pode depender dos políticos “chatos”. Devemos insistir, devemos buscar, e principalmente, transformar. O Blog EXAME Brasil no Mundo conversou com Ozires Silva. Hoje Ozires Silva vive entre São Paulo, Santos e São José dos Campos. Mas eu costumo falar, que Ozires Silva vive entre a educação e o mundo. Brasil no Mundo: O senhor tem uma história de vida, que muito se integra com a história da inovação, e da própria educação no Brasil. O que fez diferença na sua vida para que tudo acontecesse? Ozires Silva: Costumo dizer que uma pessoa sábia somente pode nascer numa sociedade sábia, pois, como sabemos, todas as pessoas são produtos do seu meio, da sua cidade, dos seus amigos, ou, em resumo, de tudo que as cercam. Nasci no interior do Estado de S. Paulo, Bauru, quando a cidade era possivelmente o maior centro de aviação do interior do Brasil. Lá é que foi despertada minha vocação para mexer com aviões. Se não fosse essa circunstância, jamais minha vida teria ocorrido da forma que aconteceu. A história é um pouco longa (e está contada no meu livro A DECOLAGEM DE UM SONHO, publicado em sua 1ª Edição em 1998). Lá no Aeroclube da cidade, aonde tudo de aviação se concentrava, havia um suíço, foragido da II Guerra Mundial, antigo produtor de aviões no seu país, que, mostrava para a molecada (eu entre eles) o fascinante trabalho de criar e fabricar aviões. Isso mudou minha vida, “descobrindo” que se podia não somente pilotar aviões, mas também fabricá-los! Do mesmo modo mudou minha vida a bolsa de estudos que ganhei da FAB para me formar como Engenheiro Aeronáutico pelo ITA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Em resumo, entre outras, essas foram as diferenças que mais contribuíram para que tudo acontecesse, como perguntou! Brasil no Mundo: Para a Embraer acontecer, quais eram os grandes desafios? E como o senhor e sua equipe superaram tudo? Ozires Silva: Sem dúvida, a Educação produz todas as diferenças e materializa as transformações nas pessoas, regiões e países. Os desafios que tínhamos eram claros. Queríamos fabricar aviões! Ótimo, boa ideia, mas, o que fazer? Vários professores no nosso Ginásio do Estado de Bauru sempre insistiam no valor da educação para produzir mudanças. Foi aí que demos os primeiros passos para entender o que seria a competição num mundo crescentemente competente. Buscamos diretamente ganhar competência cultural e técnica, passo inicial importante. Quando essa fase foi vencida percebemos que seria necessário criar tipos de aviões que nos dessem chance de vencer no mercado competitivo mundial! Assim, chegamos aos meados da década dos 1960, mais de 50 anos após o voo expressivo do grande sábio pioneiro Alberto Santos Dumont que, para fazer seu voo, em 1906, teve de se deslocar para Paris (reforçando a tese de que a sociedade precisa ser sábia). Para o Brasil poder entrar nesse mercado competitivo precisávamos de um tipo de produto que nos desse uma diferença competitiva, que nos colocasse distante dos concorrentes mundiais, na época já bem fortes e dominadores no mercado aeronáutico mundial. Assim, precisávamos de algo diferenciado. Tivemos sorte identificando que os motores a jato, recém criados e aplicados nos aviões de transporte nos meados da década dos 1950, estavam determinando a produção de produtos mais caros, maiores, mais velozes e exigindo requisitos mais sofisticados para os aeroportos. Logicamente as empresas de transporte aéreo tiveram de abandonar as cidades menores não dotadas de aeroportos adequados, pistas pavimentadas e mais longas, além de infra-estrutura capaz de lidar com as novas máquinas. Isso determinou que, em todo o mundo, as comunidades menores deixassem de ter o transporte aéreo nos seus aeroportos locais. Isso nos levou a formular a pergunta chave: AS CIDADES MENORES DO FUTURO NÃO PODERÃO DISPOR DOS SERVIÇOS DE TRANSPORTE AÉREO? Nas nossas cabeças a resposta negativa não tinha sentido. Foi então que começamos a imaginar como seria o projeto, desenvolvimento e fabricação de um avião, menor do que os grandes jatos, que acomodassem um menor número de passageiros e respondessem corretamente aos requisitos transporte aéreo de segurança e eficiência. Foi assim que começou a luta para a edição de novos regulamentos e normas para que tal produto pudesse um dia no futuro ser aprovado e certificado. Para tanto, tínhamos de produzir uma “prova de conceito”, um protótipo de um avião que demonstrasse tudo isso. Assim, começou a luta para vender a tese e conseguir apoios de uma instituição que nos permitisse construir um protótipo de um avião que, no futuro, foi o marco zero dos atuais Serviços de Transporte Aéreo Regional. E o Centro Técnico de Aeronáutica (CTA) de São José dos Campos, criado pela FAB ao lado do ITA, preencheu esse espaço. Foi uma vitória, em 22 de Outubro de 1968, quando voou pela primeira vez, o nosso BANDEIRANTE, começo de tudo. Brasil no Mundo: A Educação é, praticamente, a única agenda que pode fazer o Brasil avançar. Como o senhor vê a educação de hoje? E quais desafios o Brasil precisa superar para que a mesma se torne de primeiro mundo? Ozires Silva: Com as suas perguntas você já coloca as respostas. Diria que isso somente pode acontecer com um sistema educacional diferente do atual, que se baseie em competência e alta qualidade, disseminado e abrangente de forma a atingir toda a população. Antecipadamente, nunca se pode saber qual habitante do país será um empreendedor vencedor e, assim, temos atingir a todos. No Brasil, se examinarmos o que conseguimos até agora, com mais de 70% da população “analfabeta funcional” (como assegura o MEC); que em todas as competições estudantis do mundo aparecemos sempre entre os últimos colocados; que nossa participação, nas inovações técnicas e científicas mundiais – resultando e produtos criativos e de sucesso -, estão abaixo do insignificante, vemos que o que fizemos até agora não deu certo! Assim, os desafios que temos se centram num somente: “Transformar o País pela Educação” (nosso lema ou divisa do Grupo ÂNIMA de Educação e Cultura, no qual tenho a honra de ser o Presidente do Conselho de Administração). Temos de transformar a Educação no Brasil numa prioridade nacional efetiva, ampla e universal, se possível sem custos para os alunos de qualquer classe social. Um talento pode nascer numa favela e não podemos correr o risco de perdê-lo!!! Brasil no Mundo: O senhor tem uma linda história de amizade e determinação pela aviação. Depois de tantas conquistas e exemplos, como é pensar no grande amigo de Bauru, Zico? Ozires Silva: O Zico, Benedicto Cesar, foi o meu amigo de infância que me levou ao Aeroclube de Bauru, despertando minha vocação e, como coloca na pergunta, uma história de amizade, diria de amor, pela aviação. Ele me inspirou permanentemente. Como um líder inato que era, nas nossas discussões somamos argumentos que me acompanharam por toda a vida. O Brasil um país continente, carente de infraestrutura de superfície, com distâncias enormes a serem vencidas, precisava de uma aviação de grandes dimensões. Temos a mesma idade dos Estados Unidos e eles, os americanos, criaram a maior sistema aeronáutico do mundo, gerando empregos, oportunidades e riquezas. Ambos, Zico e eu, ficávamos perplexos de ver entre nós tal gigantesca oportunidade, e tendo Santos Dumont como pioneiro, perguntávamos: “POR QUE O BRASIL NÃO FABRICA AVIÕES?”. Foi a busca dessa resposta é que me empenhei, lamentável e infelizmente sozinho, pois Zico faleceu num acidente com um avião da FAB, na Base Aérea de Santa Cruz no Rio de Janeiro, em 1955, com apenas 26 anos de idade. Uma grande perda para nosso país! Brasil no Mundo: Em tempos de Copa do Mundo e eleições, como o senhor vê o Brasil em 2014? Quais são as suas expectativas e esperanças? Ozires Silva: Lamento muito os fracos governantes que temos tido. Destituídos de visão de grandeza comparável às dimensões continentais do nosso querido país, entre muitos projetos inoportunos e mesmo inconvenientes, preferiram colocar grandes montantes de recursos numa Copa do Mundo que poderia ser feita em qualquer outro país, trazendo vitórias que agradariam nosso povo, aonde quer que se realizem. E nada usarem dessa imensa quantidade de esforços e de dinheiro em algo que gere progresso, desenvolvimento e qualidade de vida para nosso grande povo, como a Educação de alto nível. A Natureza deu-nos um grande país, com recursos que poucos outros dispõem, e, depois de mais do que 500 anos da descoberta, ainda estamos patinando na rabeira de um mundo que, com velocidade, torna-se competente e mais sábio! Esperanças, sempre as nutro muito. Mas expectativas, caminho com poucas. O cenário das eleições mostra perspectivas de continuísmos em relação a um passado que precisa ser alterado. Com tristeza, tenho de dizer que o Brasil não deu certo. Precisamos de mudanças ousadas e corajosas, sob a pena de legarmos aos nossos descendentes um país mais pobre do que hoje, em relação ao mundo que se desenvolve celeremente Brasil no Mundo: Infelizmente, o Brasil continua nas últimas posições sobre educação e matemática na OCDE. Na sua opinião, por quê o país não avança? E o que devemos fazer para corrigir isso? Ozires Silva: Creio que já tenha respondido. Mas, acrescento que precisamos de líderes, como tem acontecido no mundo. Líderes que tenham a visão e a competência necessárias para nos levar a percorrer outros caminhos, pois os que palmilhamos até agora não se mostraram adequados. A pergunta que fica é “onde estão esses líderes?” Não sabemos, mas eles somente podem surgir em sociedades competentes, educadas e conscientes a respeito do que cada um deve fazer para contribuir para uma riqueza diferenciada, responsável, aberta ao conhecimento e quanto à necessidade de proporcionar competência para o seu povo. Líderes que levem o nosso governo ao trabalho para se tornar um catalisador, que crie condições de sucesso para cada cidadão e não dirigentes que pensem em controlar a cada um, praticando mais restrições do que estímulos! Brasil no Mundo: Hoje o Brasil lembra dos 50 anos da instalação da ditadura militar de 1964. O que o senhor pensa para os próximos 50 anos de democracia para o Brasil? Ozires Silva: Embora seus defeitos a democracia certamente é o melhor dos processos políticos, repeitando o povo, permanentemente consultado e escolhendo seus dirigentes. Espero que ela seja observada sempre, respeitada e melhorada ao longo dos anos. Um dos problemas sérios para a democracia é a insuficiência dos programas de ensino e de aprendizagem. Ou seja, do nível cultural da sociedade. No nosso caso, com a maioria do nosso povo nada lendo ou escrevendo, estamos colocados numa posição difícil. Essa maioria que elege nossos dirigentes não tem acesso às informações necessárias, poucos sabem do que está acontecendo no mundo que compete conosco. Os resultados são muito bem conhecidos. Nosso país está inundado de produtos vindos de outras nações ao contrário do que lhes exportamos, a maioria de simples manufatura ou matérias-primas vendidas no seu estado natural. E pior, não há marcas brasileiras no mundo. Fomos batidos até pela Coréia do Sul, um país com uma área correspondente à metade da do Estado de São Paulo que, há 50 anos, era muito mais pobre do que nós e sem uma unidade nacional, como temos! Respondendo à sua pergunta diria que temos de criar os próximos 50 anos disposições e normas legais diferentes e bem melhores das que temos gerado até agora. Brasil no Mundo: Uma última pergunta, em toda a sua vida, uma pessoa marcou muito, e ajudou a construir sua história, sua esposa, Dona Therezinha. Como ela marcou, e marca até hoje sua vida? Ozires Silva: Agradeço a pergunta, e a homenagem a uma grande mulher que contribuiu muito para que pudesse construir a vida que levei. Sinto muito a falta dela ao meu lado, sempre me apoiando, e se dedicando fundamentalmente a construir a família da qual hoje tenho orgulho de pertencer. As marcas que ela deixou são profundas e creio que não seja o único a perceber seu valor. Vendo hoje meus três filhos bem sucedidos, com sete netas igualmente vitoriosas e, agora, com dois bisnetos que muito prometem, rendo a ela minhas homenagens, como grande cidadã e mulher, que sempre soube se colocar e contribuir, nada esperando em troca. Fábio Pereira Ribeiro Blog
Fonte: EXAME.com


Comentários da notícia