Acelera!

07/04/2014 - Empresas que passaram por aceleradoras contam suas experiências RIO — No glossário de empreendedorismo do nosso site, vemos que as aceleradoras são empresas privadas que apoiam o desenvolvimento de startups de alto potencial de mercado. Mas como funciona esse suporte e quais são os negócios que o recebem? Para responder a essas perguntas e conhecer as vantagens das aceleradoras, ouvimos a experiência de três startups que passaram pelo processo de aceleração. O Instaquadros é uma empresa de dois anos que transforma foto digitais em produtos de arte e decoração, mas a sua ideia, mais ou menos como funciona hoje, já existia, há dez anos, na cabeça de Allan Campos, quando ainda era um estudante de desenho industrial apaixonado por fotografia. Ele pensava em vender fotos em quadros, mas não sabia empreender e preferiu guardar na gaveta o projeto. Depois de formado, trabalhou em escritórios de marketing e departamentos de design de outras empresas, até que criou sua agência, onde aprendeu a montar o próprio negócio e a lidar com a burocracia necessária. No fim de 2011, ele encontrou João Marques, amigo com quem já tinha estagiado no passado, e propôs que pusessem em prática os projetos que tinham em mente. Nesse mesmo ano, Campos percebeu que a ideia das fotos em quadros poderia realmente ser aceita no mercado. Em uma tarde ensolarada, ele estava na Praia de Ipanema, quando percebeu que todos ao redor estavam com os celulares levantados para fotografarem o pôr do sol. — Assim como eu tinha vontade de vender minhas fotos, aquelas pessoas também poderiam ter. Hoje, com a quantidade de celulares na rua e a qualidade de resolução das câmeras, todo mundo é um pouco fotógrafo. Foi aí que elaboramos nosso projeto, junto com mais dois sócios — contou o empreendedor. — Em maio de 2012, lançamos a empresa e participamos de vários eventos de empreendedorismo para mostrar o Instaquadros e coletar dicas de melhorias dos especialistas que a gente ia conhecendo. Em um desses eventos, surgiu a proposta de recebermos o suporte da 21212, empresa de aceleração de startups. Segundo Campos, os sócios se dividiram na decisão de entrar para o processo seletivo. — Eu já tinha uma agência, outro sócio já tinha uma gráfica, e a gente pensava que sabia tudo o que precisava para colocar uma empresa na rua. Mas chegamos a um acordo, porque poderia ser um aprendizado realmente novo, já que estávamos entrando no mercado digital, ao qual não estávamos habituados. Eles encararam quase 700 concorrentes para conseguir uma das seis vagas que a 21212 oferecia. Foram cinco entrevistas para provar que o produto e a equipe envolvida eram bons e que tinham tudo para alavancar a empresa. Em janeiro 2013, os sócios da Instaquadros receberam R$ 50 mil de survival money, como, nesse meio, é conhecido o dinheiro de sobrevivência. Com esse montante em mãos, eles deveriam se dedicar exclusivamente ao desenvolvimento da empresa acelerada. Segundo Frederico Lacerda, sócio-fundador da 21212, a função de uma aceleradora não é investir dinheiro nas startups, mas dar suporte para que elas cresçam e conectá-las a investidores. — Em geral, uma aceleradora investe de R$ 50 mil a R$ 100 mil em suas startups, mas não é esse dinheiro que vai fazer a empresa crescer, e sim, o conhecimento e os contatos que os sócios vão adquirir por meio da estrutura que oferecemos. Normalmente, os empreendedores são muito ansiosos, querem ver tudo dando certo rapidamente. A aceleradora funciona como um sócio mais experiente, que vai ajudá-los a vender seus produtos e a descobrir os caminhos certos para o crescimento — explica Lacerda. Por oito meses, os sócios da plataforma digital que transforma e comercializa fotos em produtos de arte e decoração hospedaram a empresa nas dependências da aceleradora e tiveram assistência jurídica especializada em e-commerce, fizeram contatos que os conectaram a grandes sites de vendas on-line e participaram de worshops com empresas consolidadas no mercado digital. — É uma pós-graduação poder contar com uma aceleradora — resume Campos, que ainda contou com infraestrutura de trabalho da 21212, como escritórios, salas de reunião, telefone e computadores. Em Recife, há dois anos, quatro jovens criaram juntos uma plataforma virtual de gerenciamento de eventos, na qual, realizadores poderiam criar uma página de divulgação e venda de ingressos, a Eventick. O projeto participou do Desafio Brasil da FGV, quando foi convidado a participar do Plug and Play Tech Center, um dos principais processos de aceleração do mundo, que já investiu em empresas como PayPal, Facebook, Groupon, Instagram e Skype. Os sócios passaram três meses em uma aceleradora do Vale do Silício, onde estiveram imersos na cultura de negócios dos EUA e compartilharam informações com os mais diferentes tipos de empreendedores e profissionais. Quando voltaram, resolveram se mudar para o Rio de Janeiro, onde consideravam que o mercado de eventos era mais forte. — Apesar da experiência incrível no Vale do Silício, queríamos voltar para o Brasil e ser acelerados por uma empresa daqui, porque lá vivenciamos demais o mercado americano e precisávamos mesmo nos conectar a especialistas voltados para o nosso país e para a América Latina — contou André Braga, um dos sócios da Eventick. Em 2013, a empresa foi selecionada pelo programa federal Startup Brasil, que investe em startups e faz a conexão com aceleradoras. A Eventick passou a ser acelerada pela Aceleratech, em São Paulo, para onde se mudou. Entre setembro e dezembro daquele ano, eles viram a empresa crescer 300%. — Em quatro meses, a convivência é muito intensa, aprendemos bastante, melhoramos nosso planejamento, nos transformamos. Nesse período, por exemplo, através das consultorias a que tivemos acesso, vimos que deveríamos ter como foco os eventos corporativos porque, ao mesmo tempo em que há uma quantidade enorme de encontros desse tipo no Brasil, principalmente no eixo Rio-São Paulo, faltam plataformas como a nossa que ofereçam o nível de personalização que oferecemos — pontua Braga. — Nossa meta é sermos o maior site de gerenciamento de eventos da América Latina. Segundo o empresário, três fatores foram essenciais para a aprovação da Eventick na aceleradora. — Primeiro que, quando nos candidatamos, o mercado de plataformas de eventos estava crescendo. Em segundo lugar, mostramos que nos mexemos. Saímos de Recife, onde a realização de eventos não era tão forte, para buscar um mercado mais relevante. E, por último e não menos importante, provamos que temos uma equipe muito motivada. Na região Sul, o Curupira também passou por uma aceleradora. A empresa de Joinville, em Santa Catarina, vende, pela internet, árvores nativas e planta em área degradada, com o objetivo de recuperar a biodiversidade local. São 60 hectares de terra no município de Nova Mutum, no Mato Grosso, onde já foram plantadas mais de três mil árvores, a partir da compra de pessoas físicas e jurídicas, interessadas em compensar a emissão de gases poluentes. — Acreditamos que é possível construir um modelo de negócios lucrativo e que traga benefícios diretos à natureza. Não somos uma ONG que planta árvores, somos uma empresa preocupada com o meio ambiente – ressalta Guilherme Quandt, diretor executivo do Curupira. — A questão é que, no início, tínhamos um orçamento enxuto e estávamos apostando em um nicho ainda muito incerto. Por isso, resolvemos buscar o suporte de uma aceleradora, onde sabíamos que encontraríamos especialistas das mais diferentes áreas, inclusive da socioambiental. Os cinco sócios do Curupira se candidataram para o processo seletivo da WOW, aceleradora de Porto Alegre. Eles concorreram com outras 92 startups a três vagas. No mês passado, terminou a aceleração, mas o diretor executivo garante que o Curupira não se sente órfão. — A experiência que vivemos na aceleradora foi muito importante para nosso amadurecimento, estivemos ao lado de pessoas que nos ajudaram a pensar fora da caixa e fizemos um networking incrível. O processo de aceleração não termina abruptamente. Ainda seremos avaliados por mais seis meses pelos investidores parceiros da aceleradora. Depois disso, ela tem a opção de se tornar sócia do Curupira. Se isso acontecer, poderemos sempre contar com o suporte dela, enquanto estivermos juntos. Amanda Wanderley
Fonte: O GLOBO


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