Juros vão a 11% e podem subir mais

03/04/2014 - Com a decisão do Comitê de Política Monetária, a presidente Dilma Rousseff passa a ostentar taxa mais elevada do que no início do governo. Para analistas, inflação resistente deve exigir novos reajustes Numa decisão amplamente esperada pelo mercado, o Banco Central (BC) aumentou os juros básicos da economia para 11% ao ano. O aumento, de 0,25 ponto percentual, foi o nono consecutivo desde abril do ano passado. Com a elevação, a presidente Dilma Rousseff, que prometeu baixar os juros ao patamar de países desenvolvidos, passa a ostentar taxa mais alta do que a recebida do antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. No início do atual governo, a Selic estava em 10,75%. Além disso, no comunicado com que anunciou a medida, embora tenha dado sinais de que o ciclo de aperto monetário pode estar próximo do fim, o BC não fechou a porta para uma nova subida dos juros. “O Copom decidiu, por unanimidade, neste momento, elevar a Selic em 0,25 ponto percentual para 11%, sem viés. O Comitê vai monitorar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na estratégia de política monetária”, diz o documento. Para o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio, Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central, a autoridade monetária tomou a decisão correta. “O BC deixou a porta semiaberta. Não poderia anunciar hoje o fim do ciclo de aperto, com a inflação persistente. Mas também não poderia dizer que vai continuar subindo a Selic porque, se a economia estiver muito desaquecida, isso a prejudicaria ainda mais”, avaliou. A maioria dos analistas ainda aposta em mais uma alta da Selic, também de 0,25 ponto percentual, na reunião marcada para 27 e 28 de maio. Os especialistas baseiam a estimativa na resistência da inflação, que, durante todo o governo Dilma, tem permanecido mais próxima do teto, de 6,5%, do que do centro da meta oficial, de 4,5% — e não dá sinais de trégua, nem mesmo depois dos seguidos aumentos da taxa de juros. “Agora, é preciso ficar atento à ata da reunião do Copom, que será divulgada na próxima semana. Mesmo que não tenha anunciado um viés de alta no comunicado, o BC deixou em aberto a possibilidade de continuar com o aperto monetário nas próximas reuniões. Pelo menos, mais 0,25 ponto em maio será necessário para conter a inflação”, destacou Eduardo Velho, economista-chefe do INVX Global Partners. Descrédito A carestia não cede, avaliam os economistas, porque o governo está desacreditado desde que se mostrou leniente no combate aos reajustes disseminados de preços. A política econômica de Dilma incentivou o consumo para aquecer a atividade, mas só conseguiu reavivar o fantasma da inflação, já que o ritmo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) diminuiu, assim como o poder de compra das famílias brasileiras. A falta de resposta da economia às medidas tomadas pelo governo e aos aumentos de juros promovidos pela autoridade monetária exige maior austeridade no combate à inflação, na opinião de Jason Vieira, economista do portal de informações financeiras Moneyou. “O BC está na berlinda porque, se apertar muito os juros, aí mesmo é que o crescimento do país vai emperrar de vez. Ao mesmo tempo, é o instrumento que tem para tentar conter a carestia. O grande problema deste governo é a alta persistente dos preços dos alimentos, porque ela é motivada pelo clima ou pelo câmbio, e não há política monetária que resolva isso”, avaliou. A preocupação do mercado também passa pela inflação dos preços administrados. O governo represou as tarifas de energia elétrica e de transporte público, além dos combustíveis, para segurar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) pelo menos dentro do limite da meta. Em abril, os recentes aumentos de bebidas e de remédios devem puxar o índice oficial para cima. Estouro Para Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, “a inflação vai estourar o teto, mesmo com a alta de 0,25 ponto percentual dos juros”. Ela prevê que o IPCA baterá em 6,6% em junho e em 6,8% em julho. “A carestia deve ceder um pouco depois disso e fechar o ano em 6,1%. Em 2015, a expectativa é de que a inflação dos preços administrados seja de 7,3%”, afirmou. Na avaliação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a decisão do Copom, apesar de justificada pela resistência da inflação, impõe pesados custos ao setor produtivo. “As expectativas apontam para um IPCA em torno de 6,30% em 2014, valor muito próximo ao teto. Há pressões inflacionárias no horizonte, como o fim da desoneração da tarifa de energia elétrica, os efeitos defasados da desvalorização cambial sobre os preços e a resistência dos valores cobrados pelos serviços”, ressaltou a entidade, que propõe ao governo utilizar também a política fiscal no combate à inflação, com a contenção do ritmo de elevação dos gastos públicos. “Isso minimizaria os efeitos negativos da alta dos juros na atividade industrial”, acrescentou a CNI. Impacto A Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) acreditam que o aumento da Selic reduzirá ainda mais a capacidade de crescimento da economia brasileira e terá impacto negativo nos investimentos e no consumo das famílias. Na avaliação do presidente da CNDL, Roque Pellizzaro Junior, o governo precisa enxugar as despesas públicas para controlar a inflação. “O aumento de juros é um mecanismo que deve ser acionado somente em último caso, porque esfria a economia, restringe o crédito e piora a situação das famílias”, afirmou. » SIMONE KAFRUNI
Fonte: Correio Braziliense / DF


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