Número de bibliotecas cai 40% em BH; a principal delas não se recuperou de incêndio

13/01/2014 - Na cidade onde moraram talentos como o poeta Carlos Drumond de Andrade e o escritor Guimarães Rosa, bibliotecas estão em dificuldades para cumprir a tarefa de conservar documentos históricos e garantir acesso da comunidade a milhares de livros. Guardiã de parte da memória mineira, a Biblioteca Estadual Luiz de Bessa, na Praça da Liberdade, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, ainda não se recuperou do incêndio que atingiu parte do terceiro andar há mais de um ano o incidente ocorreu em 23 de dezembro de 2012. Um grande buraco chamuscado nas curvas da fachada de Oscar Niemeyer continua visível. Por outra abertura, de mais de 15 metros de largura, ainda entra água quando chove, segundo relato de funcionários. Em bibliotecas municipais, há outros problemas: de 41 espaços selecionados em 1997 para servir de referência na organização de acervos de colégios e permitir empréstimos de livros, apenas 25 (61%) continuam a cumprir a função, algumas de maneira precária. O incêndio no final de 2012 provocou estragos na Biblioteca Luiz de Bessa e ainda há problemas sem solução. As chamas deixaram janelas retorcidas e consumiram documentos guardados em arquivos e cofres no terceiro andar do imóvel. A Secretaria de Estado de Cultura (SEC) confirmou que a água usada pelos bombeiros para combater o incêndio no prédio, de 1954, penetrou pela laje do pavimento de baixo e atingiu 300 exemplares do acervo de arte das coleções especiais. Os documentos históricos foram levados às pressas para o Arquivo Público Mineiro e algumas unidades passam até hoje por um processo de higienização e secagem. De acordo com a SEC, o processo de recuperação é lento, feito página por página. Mas a secretaria afirma que a maior parte dos documentos já está restaurada e que nenhum exemplar foi perdido. Funcionários que pediram não ser identificados disseram que ainda há exemplares molhados durante o combate ao incêndio que não foram recolhidos para restauro. A reportagem do EM esteve em três setores da Luiz de Bessa e ouviu de funcionários que, quando chove a água que entra pelo buraco no terceiro andar ainda se infiltra no pavimento inferior. Quando molha aqui em cima (terceiro andar), molha lá embaixo também. Aqui já ficou uma piscina de tanta água que entrou numa tempestade, afirma um dos funcionários que trabalha no pavimento onde ocorreu o incêndio. No local atingido, a pintura branca do teto, paredes e colunas ficou negra pela fumaça. Janelas e tacos do piso foram removidos. Parte do chão foi retirada no local onde trabalhadores dizem que a água se acumula. A SEC nega que ainda ocorra infiltração no imóvel. Na hemeroteca, que também funciona no terceiro andar e onde são guardados exemplares antigos de jornais e revistas, a organização do acervo ainda não está completa. O arquivo ficou sem luz por causa do incêndio e, por isso, pastas com muitos exemplares ficaram misturadas. Ainda estamos organizando tudo, mas está melhor do que estava. Foi tudo muito confuso, mas nada se perdeu de forma definitiva, disse um dos atendentes. As obras de reforma da biblioteca começaram 11 meses depois do incêndio, em novembro do ano passado, e vão atravessar todo o período chuvoso. A previsão é de que a entrega do edifício renovado ocorra em julho. Na rede municipal de ensino, há problemas no programa de bibliotecas-polo. Das 41 bibliotecas escolares que seriam referência na organização de acervos de colégios e deveriam emprestar livros para a comunidade, apenas 25 ainda têm essa função. E algumas das que continuam no programa têm políticas que restringem o funcionamento e os empréstimos de obras. A reportagem tentou contato com as 25 instituições. Entre as nove que responderam, apenas três estavam funcionando e emprestando livros sem restrição. Nas outras seis, havia casos de empréstimos em horário reduzido, instituições que não funcionam em janeiro e até bibliotecas que não permitem à comunidade pegar livros emprestados. Pela descrição do programa de bibliotecas-polo da prefeitura, tais locais devem atender as comunidades, ou seja, permitir que moradores interessados façam fichas e possam escolher livros. Porém, na Escola Municipal Padre Francisco Carvalho Moreira, no Bairro São Geraldo, na Região Leste, quem não estuda na unidade é barrado logo na porta da biblioteca, como comprovou a reportagem ao tentar se cadastrar na semana passada. Não atendemos a comunidade. Só os alunos, disse a bibliotecária, enquanto separava pilhas de livros didáticos. Moradores reclamam. É uma pena que eu e meus filhos não possamos procurar as leituras que nos interessam nas bibliotecas que foram feitas para isso. A escola tinha de participar mais da comunidade, lamenta a vendedora Pollyanna Alexandra Rosa, de 27 anos, moradora do Bairro São Geraldo. A única biblioteca-polo da Região Centro-Sul, no Colégio Imaco, em Lourdes, também só atende os seus alunos. Depois que nos mudamos de dentro do Parque Municipal para o edifício atual, a biblioteca foi desfeita. O espaço aqui é pequeno e por isso mandamos a maioria dos nossos livros para outras escolas, disse a atendente. De acordo com a funcionária, muitos ex-alunos ainda tentam empréstimos, mas voltam de mãos vazias. Como o colégio é bem antigo (1954), tem gente até mais velha que se decepciona por não poder pegar um livro emprestado. Eles ficariam ainda mais tristes se vissem a salinha que virou a biblioteca e o pouquinho de livros que sobrou nas estantes, lamentou a funcionária. Sem acesso Na maioria das escolas municipais que serviriam como bibliotecas-polo, os interessados em pegar um livro emprestado nem sequer conseguiriam entrar nas instalações. Das 25 instituições de ensino indicadas pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), 17 estavam fechadas na semana passada. Em duas delas - a Escola Municipal Mestre Paranhos, que fica no Conjunto Santa Maria, na Região Oeste, e na Escola Municipal Professor Cláudio Brandão, no Bairro Aparecida, Região Nordeste - os diretores das instituições disseram que as bibliotecas não abrem nos fins de semana nem nos meses de recesso escolar. Essas restrições são entraves para estimular a leitura, na avaliação da professora de biblioteconomia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Adriana Bogliolo. Há dois aspectos fundamentais para se criar um leitor: o gosto e o hábito. São duas características difíceis de cultivar e que podem ser perdidas sem a manutenção desses espaços, disse. Para a professora, deveria ser justamente nos momentos de recesso, nas férias, feriados e fins de semana que as bibliotecas públicas deveriam dar atenção maior aos usuários. O livro, hoje, compete com vários aparelhos eletrônicos e outras atividades de fim de semana. Se não há local para empréstimo aberto nesses momentos, o livro deixa de se tornar um programa nesses momentos de lazer, alerta. A Secretaria Municipal de Educação (Smed) informou que o programa das bibliotecas-polo não foi extinto. De acordo com a pasta, 10% das verbas previstas para cada escola são para uso em suas bibliotecas. A maior parte dos investimentos tem sido em ampliação do acervo e tecnologia. A secretaria não comentou o fato de as bibliotecas não atenderem a comunidade. Mateus Parreiras
Fonte: UAI.


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