Com cálculo jamais autorizado pelo MEC, Colégio Anchieta cria método próprio para favorecer publicidade

10/01/2014 - Em SAlvador, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), deixou de ser um termômetro para avaliar os alunos e se tornou mera ferramenta publicitária. Para tentar frear o uso das notas como moeda na barganha por novos estudantes, o Ministério da Educação (MEC) não divulgou o ranking das escolas no Enem 2012. Porém, o que seria uma medida para impedir a utilização dos resultados em campanhas de propaganda deu espaço para instituições de ensino - como o Colégio Anchieta - criarem os seus próprios métodos de cálculo e, consequentemente, os seus próprios rankings, induzindo pais e alunos a erro. De acordo com publicidade veiculada pelo Colégio Anchieta em redes sociais, comerciais de TV e outdoors espalhados por toda a cidade, a instituição obteve a maior média geral da capital no Enem. O método utilizado na conta, entretanto, jamais foi usado pelo MEC - uma informação que o colégio conhece em todos os seus detalhes e, ainda assim, prefere ignorar. Em uma conversa com uma internauta na página oficial do Anchieta no Facebook, a assessoria de comunicação do colégio explicou como chegou ao valor que o coloca em primeiro no ranking soteropolitano. "A média global foi calculada somando as cinco notas e dividindo por cinco", diz. O resultado do cálculo feito pela escola coloca, adivinha?, o Anchieta em primeiro, com 666.69 pontos, contra 663.652 do Colégio Anglo-Brasileiro, segundo no ranking criativamente improvisado pelo rival. Só que o método de cálculo popularizado pelo MEC e utilizado, por exemplo, para definir os selecionados no Programa Universidade para Todos (ProUni), é resultado da divisão por 2 entre a média aritmética das competências somada à nota da redação - um critério bem diferente, portanto. Que matemática é essa, Anchieta? Pole position de ranking imaginário E não é só o Anchieta que usa cálculos inventados. Disputando a pole position de um ranking que inexiste, o Marista alega ser o sexto melhor da cidade e o Resgate/São Lázaro diz ter sido o primeiro - com um asterisco que indica a informação "na região de Brotas e Cabula". Consultado, o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino da Bahia (Sinepe-BA) foi escorregadio. "O MEC condena. Orientamos a, antes de divulgar, pensar se essa é a realidade da instituição. A gente não condena e também não apoia", explicou sua assessoria de imprensa. O Sinepe confirmou, porém, que o método adotado pelo Anchieta não deveria ser utilizado. "Foi como todos fizeram" O diretor pedagógico do Colégio Anchieta em Salvador, João Augusto Bamberg, afirmou que não conhecia a fórmula - que trata separadamente a média das provas objetivas e a redação, ao contrário do que fez a escola - divulgada nos anos em que o MEC realizou rankings. Questionado sobre a divulgação de um ranqueamento sem critérios do MEC ser considerada publicidade enganosa, Bamberg discorda. "Foi como todos fizeram, e nós, simplesmente, fizemos dessa maneira por acharmos ser a certa. Não sendo, se existe um cálculo que o Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, vinculado ao MEC, que coordena o Enem] divulga, a escola fará de acordo com esses cálculos. Se o resultado for outro, a escola irá divulgar", declarou, sabendo que, desta vez, o MEC não fez um ranking e, consequentemente, não divulgou uma fórmula para ordenar as escolas. O responsável pela pedagogia de uma tradicional instituição de ensino de Salvador, que diz em seu site "formar pessoas para transformar o mundo," declarou que não vê problemas no cálculo feito pela sua instituição. "No momento, essa é a fórmula que nós imaginamos ser a correta", disse. "Propaganda enganosa", diz Procon Segundo o diretor de Atendimento ao Consumidor do Procon, Iratan Vilas Boas, a prática publicitária do Colégio Anchieta pode ser punida pelo órgão. "O nome da prática é conhecida popularmente como propaganda enganosa. Esse tipo de informação, com a intenção de mentir ou ludibriar o consumidor em relação a informações referentes à prestação de serviço, é considerado publicidade enganosa, e a pena por praticar esse tipo de crime é de detenção de 3 meses a um ano e multa", explica. Ainda segundo Vilas Boas, além de fiscalizar esse tipo de publicidade por intermédio de denúncias de consumidores, o Procon também pode intervir na relação e estabelecer sanções aos fornecedores que se portarem de forma errada. Critérios desconhecidos Ao Jornal da Metrópole, a assessoria de comunicação do Marista afirmou que nenhum cálculo para a obtenção da nota foi feito antes da ação publicitária, mas informou que só se pronunciaria oficialmente por comunicado, o que não foi feito. Segundo o diretor pedagógico do Resgate/São Lázaro, Antônio Luiz de Santana, o colégio usa os resultados por áreas de conhecimento divulgadas no site do Inep. "Fazemos o comparativo com outras escolas pelas áreas de conhecimento", argumenta. Ainda segundo o diretor, as campanhas da instituição deixam claro que o Resgate é o "número 1" se comparado a rivais da região de Brotas e Cabula.
Fonte: Rádio Metrópole FM - Salvador/BA


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