Nova Escola: O professor do seu filho é profissional ou missionário?

A menor distância entre dois pontos é uma reta. Lembra dessa aula? É um conceito simples, intuitivo e quase nunca usado no lugar em que ele é ensinado, a escola. “Como assim?”, você me pergunta. É fácil de explicar. Muitas vezes, a menor distância entre dois problemas em educação não é uma reta, mas uma curva que desvia da questão verdadeira e acaba criando uma encrenca ainda maior no futuro.

A Folha publicou uma excelente reportagem de Fábio Takahashi sobre o currículo municipal de São Paulo e os desafios da sua implementação. Recomendo a leitura. É um mergulho profundo na escola pública paulistana. Poderia comentar cada parágrafo, mas queria destacar os que falam sobre a alta rotatividade de docentes nas salas de aula e a enorme quantidade de licenças para faltar. Essas autorizações estão na rede municipal desde 1979 e não são exclusividade dela. Em várias cidades e Estados país afora há justificativas semelhantes. É uma prática que atravessa décadas, sobrevivendo a trocas de regime, governos e gerações.

E por que isso acontece? Porque a aprendizagem dos alunos virou moeda de negociação salarial. Quando não consegue dar boas condições de trabalho ou fazer reajustes salarias (por inflação ou mérito), o Estado negocia com faltas justificadas ou concessões que, na prática, tiram os docentes da sala de aula.

As consequências são claras. Alunos perdem dias preciosos de aulas e sofrem com o rodízio de profissionais da educação. A baixa aprendizagem dos estudantes também tem ligação com a falta de aulas. Já os professores precisam se virar, dando aulas em várias escolas diferentes, para fazer o dinheiro caber no mês. Essa rotina extenuante dos docentes, aliás, tem um efeito ainda mais perverso. Com menos tempo, eles acabam dando aulas piores. Afinal, bons professores precisam estudar para exercer seu ofício.

A Nova Escola fez, modéstia à parte, uma ótima reportagem sobre o tema. Hoje, para pagar todos os boletos do mês, os professores estão catando latinha, assentando tijolo e entregando troco em ônibus. Esses professores são apaixonados por educação e gostariam de estar só na sala de aula. Como é impossível, eles dão um jeito de se manter na docência. Eles se veem como pessoas imbuídas de uma missão e dão um jeito de cumpri-la de qualquer forma. É bonito e horrível ao mesmo tempo.

Algumas ideias sobre educação parecem nobres no discurso, mas são uma tragédia na prática. Uma delas é que o professor é um ente vocacionado com uma nobre missão no mundo, um herói disposto a superar todos os obstáculos para ensinar o alfabeto a uma criança. É lindo, admirável e sempre me emociono quando escuto histórias assim (e recebo relatos nessa linha quase toda a semana).

A questão é que isso virou uma muleta, mental e prática, para não profissionalizar a docência. É resquício de uma época em que a educação era uma atividade extra feita por missionários e, mais tarde, por mulheres - era uma das poucas profissões que elas podiam exercer em um tempo em que elas precisavam de autorização do marido para trabalhar.

Sem desmerecer as histórias e as vocações, é preciso colocar um pouco de frieza e profissionalismo na mesa. Afinal, em qual profissão se dá tantas licenças para faltar? Em que carreira dizemos que o trabalho é dispensável algumas vezes por ano? Em que área as pessoas são obrigadas a exercer seu ofício sem internet, com água dia sim, dia não?

Se você quer fazer algo pela educação, ajude a profissionalizar a docência. Cobre seu vereador, seu deputado, se engaje – mostre que educação não é uma área invisível. Não será uma tarefa fácil. Será preciso mexer em muitos vespeiros. Mas valerá a pena.

Os melhores países em educação no mundo não tratam seus educadores como heróis, mas como pessoas que fazem um trabalho sério, com grande valor para toda a comunidade. É hora de acabar com os puxadinhos nas escolas brasileiras.



Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/novaescola/2018/12/o-professor-do-seu-filho-e-profissional-ou-missionario.shtml


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