A sobrecarga de trabalho dos professores

Inquérito feito a docentes do Ensino Básico e Secundário demonstra que o horário legalmente previsto é curto para a atividade escolar e que os manuais são o recurso mais utilizado para preparar aulas e testes. Os conteúdos são o elemento mais valorizado.

Há uma sobrecarga de trabalho que está a afetar a atividade docente. O tempo não letivo legalmente previsto é considerado insuficiente por 97% dos professores. E é um tempo importante que se destina a preparar aulas e exercícios, elaborar e corrigir testes. Um estudo sobre o tempo despendido e os recursos utilizados pelos professores na preparação das atividades de ensino, realizado pelo Observatório dos Recursos Educativos (ORE), coordenado pelo professor catedrático Adalberto Dias de Carvalho da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, revela que 63% dos professores precisam de mais de cinco horas semanais para os trabalhos que saltam fora da componente letiva e não são considerados preparação de atividades escolares.

“Considerar, implícita ou explicitamente, que o trabalho dos professores se circunscreve ao tempo na sala de aula constitui um erro grave de avaliação. Na verdade, conforme se constata, há várias outras tarefas fundamentais, antes e depois das aulas, que consomem tempo, inclusive para lá dos muros da escola”, lê-se no estudo que demonstra que a correção de testes e a preparação das aulas são as tarefas que requerem mais tempo extra letivo aos professores, depois da elaboração de testes, coordenação e participação em projetos da escola e formação contínua.

“Se não se souber o número de horas e a qualidade do tempo de que um docente precisa para preparar as lições, podemos criar uma carga horária esmagadora e deprimente. E nunca obter uma docência de excelência. Para preparar as aulas os professores têm de ter uma vida própria - e já não têm”, escreveu um dia o ensaísta e professor universitário José Gil. Estas suas frases são lembradas nesta pesquisa.

Este estudo, baseado num inquérito respondido por 4590 docentes do 1.º ao 12.º ano de escolaridade, do Ensino Básico e Secundário, evidencia, por outro lado, a importância e o impacto positivo do manual escolar no apoio à docência. A abordagem que os livros escolares proporcionam ao programa curricular é valorizada pelos professores, já que permite “otimizar o pouco tempo de que dispõem para o planeamento e preparação dos momentos letivos”. Noventa e sete por cento dos professores utilizam-no com muita frequência nas aulas, mais de 54% fazem-no “sempre”, cerca de 30% “quase sempre” e quase 13 “regularmente”. Mais 92% recorrem sistematicamente aos manuais na elaboração das suas planificações.

Da análise aos recursos educativos disponíveis - manuais escolares, cadernos de atividades, Internet, dicionários, literatura especializada – os livros escolares são os mais utilizados com uma “expressiva diferença” em relação aos restantes meios ao dispor. Quase 61% referem que o livro escolar é “muito útil”, perto de 44% respondem da mesma maneira em relação à Internet e cerca de 36% atribuem essa mesma relevância aos cadernos de atividades. Quase 19,5% dos docentes dizem que a leitura especializada é muito útil e cerca 9% atribuem essa importância aos dicionários.

Os conteúdos dos manuais escolares são o elemento que os professores consideram mais importante para a preparação das aulas e elaboração de testes. A tradução, de forma organizada e adequada, do programa da disciplina é um dos motivos dessa preferência. Em contrapartida, as grelhas de planificação e os guiões metodológicos são os elementos menos valorizados.

Estratégias diversificadas e orientadoras

“As características apresentadas pelos manuais escolares, que promovem a implementação de estratégias diversificadas e orientadoras, fazem com que os professores considerem estes recursos como instrumentos mediadores na relação com os alunos, sendo utilizados nas aulas por 97% dos inquiridos com muitíssima frequência e 79,54% recomenda-os muitas vezes ou mesmo sempre aos alunos para a realização dos trabalhos”, conclui o estudo. Os professores também valorizam os instrumentos de avaliação acessórios aos projetos editoriais escolares, como testes de avaliação, exercícios e fichas formativas. Por outro lado, verifica-se que o recurso a estratégias associadas ao manual escolar como, por exemplo, a proposta de atividades de extensão do conhecimento, podem ser penalizadas devido à extensão dos programas curriculares em vigor.

“São muito poucos os aspetos de um manual escolar de que os professores prescindiriam. Testes de avaliação sumativa, exercícios com perguntas de escolha múltipla e fichas formativas são os itens do manual escolar mais valorizados; num segundo nível, mas ainda assim relevante para um número considerável de professores, estão os planos de aula, os materiais complementares e as atividades de extensão (como guias de viagem de estudo, etc.) e os exercícios com perguntas de sopa de letras/palavras cruzadas”.

Há várias conclusões neste estudo. Os professores usam o livro escolar e recomendam-no aos alunos para que acompanhem a matéria, estudem e se preparem para os testes. “O manual escolar, certamente pela sistematização que faz do currículo e por conglomerar num só recurso o que está disperso noutras fontes, é o recurso educativo por excelência mobilizado pelo professor”. “(…) os manuais escolares assumem-se cada vez mais como um recurso que oferece estratégias diversificadas e orientadoras, que levam os alunos para lá das suas páginas”.

O estudo baseou-se num inquérito feito nos primeiros meses deste ano a 4590 docentes do Ensino Básico e Secundário de todo o país. A representatividade da amostra é significativa. Composta por 79% de mulheres e 21% de homens, 50% dos respondentes têm mais de 50 anos, cerca de 70% lecionam há mais de duas décadas. A esmagadora maioria dos respondentes, cerca de 82%, tem entre 40 e 59 anos, e cerca de 86% estão na carreira, em quadro de escola ou quadro de zona pedagógica, o que está alinhado com a redução de contratações de docentes nos últimos anos no ensino público. 


Fonte: https://www.educare.pt/noticias/noticia/ver/?id=142175&langid=1


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